Foto de arquivo. Lince-ibérico. Foto: Program Ex-situ Conservation

Como é cuidar dos linces-ibéricos do Vale do Guadiana?

Conservação

No Vale do Guadiana, no Alentejo, viverão hoje 15 linces-ibéricos. Mais a cria da Jacarandá, claro. Falámos com Pedro Rocha, director do Parque Natural do Vale do Guadiana, que nos mostrou como se cuidam dos linces na natureza em Portugal.

 

A 5 de Maio surgiu a notícia do nascimento da primeira cria em liberdade em Portugal em cerca de 40 anos. Nasceu no Vale do Guadiana e hoje terá cerca de 45 dias.

“Este nascimento representa tudo. É para isto que trabalhamos. Além disso, ajuda-nos a ultrapassar os momentos menos bons”, comentou hoje à Wilder Pedro Rocha.

Desde o ano passado que o director do Parque Natural do Vale do Guadiana tem uma responsabilidade acrescida: olhar pelos linces-ibéricos que estão a ser reintroduzidos numa região do parque, área protegida com 70.000 hectares.

 

Jacarandá e a cria. Foto: ICNF

Jacarandá e a cria. Foto: ICNF

 

As equipas no terreno já desconfiavam da gravidez de Jacarandá, que acabou por dar à luz num buraco de uma rocha. “Sabemos mais ou menos quando os nascimentos devem ocorrer. A verdade é que já lá podíamos ter ido antes, mas preferimos esperar pelas imagens da armadilhagem fotográfica para não causarmos problemas nem perturbações” à mãe e à cria. “Nesta fase temos de vencer a curiosidade.”

Hoje, viverão no Parque Natural 15 linces-ibéricos. Mais a cria da Jacarandá. Nove deles foram reintroduzidos em 2015 e seis já este ano. Outras duas linces acabaram por morrer, Kayakweru e a Myrtilis.

Ainda havia dados sobre um macho, o Kahn. “Mas não temos registo dele desde talvez Novembro de 2015. Perdemos-lhe o rasto em São Teotónio, quando estaria a subir para Odemira”, disse Pedro Rocha.

Estes 15 animais não prestam contas a ninguém mas andam bem vigiados. “Temos cerca de 40 câmaras de foto-armadilhagem espalhadas pelas zonas de lince, em sítios estratégicos”, acrescentou. Cada lince tem as suas rotinas e hábitos e a equipa de seguimento já os conhece. O problema é quanto “se acabam as pilhas das câmaras ou quando há cartões queimados, com tanto calor…”, diz com um sorriso de desabafo.

Mas não são só as câmaras que fazem todo o trabalho de seguimento. O acompanhamento dos linces é feito também por emissores de telemetria remota e por telemetria tradicional. Praticamente todos os dias, duas equipas saem para o campo para captarem o sinal emitido pelos colares dos linces e para conseguir observá-los.

“Temos uma equipa de duas pessoas do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), apoiada por quatro vigilantes da natureza – ainda que estes não estejam a tempo inteiro -, e uma outra equipa de quatro pessoas do CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos)”, contou.

Os linces estão divididos por zonas e cada equipa sai para áreas diferentes. São estas 10 pessoas que acompanham os linces na natureza e entre elas há biólogos e veterinários. “Às vezes é preciso intervir e fazer capturas de emergência. Como com o Loro, que tinha uma fractura.”

“Temos reuniões quinzenais com as equipas no terreno e veterinários. É nestas reuniões que os veterinários analisam os vídeos e as fotos para verem se os linces estão bem, se estão a ficar magros ou se têm algum problema”, acrescentou.

 

Lince-ibérico Macela. Foto: ICNF

 

Nessas reuniões são ainda definidas as prioridades de seguimento para os dias seguintes. “A nossa prioridade são sempre os linces que estão em dispersão. Não os podemos perder.” Normalmente, os linces que vivem no Vale do Guadiana fazem dispersões de vários quilómetros mas acabam por regressar. “Um foi quase até Beja e voltou, por exemplo. Os animais têm hábitos mas podem mudar. E é aí que os podemos perder. Neste momento há um lince que se está a aproximar do Algarve”.

 

Vale do Guadiana, a “casa” dos linces

 

Estes 15 linces vivem preferencialmente numa zona que tem entre 15.000 e 20.000 hectares, dentro dos 70.000 da área do Parque Natural do Vale do Guadiana. “É essa a área de maior qualidade para o lince. Há boas densidades de coelho-bravo, há bastante vegetação arbustiva que proporciona abrigos, como estevas, zambujeiros, aroeiras e algumas azinheiras”, descreveu Pedro Rocha.

Na verdade, o Vale do Guadiana não foi escolhido por acaso. “Este local foi selecionado como local de reintrodução por cumprir uma série de critérios definidos a nível ibérico, como a distância às estradas, proximidade a outros núcleos com indivíduos reprodutores, existência de fiscalização e densidade de coelho”. Tudo foi validado a nível ibérico.

 

Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ do Lince-Ibérico

Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ do Lince-Ibérico

 

Uma das causas de mortalidade para a espécie são os atropelamentos. Este é um problema de conservação. Na zona de linces do Parque Natural, Pedro Rocha destaca um troço de estrada crítico, que todos conhecem bem. “É um troço de 10 quilómetros da estrada que liga Mértola a Beja”, o IC27.

Há pontos negros bem definidos. “Já vários linces atravessaram essa estrada. Quando nos apercebemos de que andavam demasiado próximo tentámos dissuadi-los de andar na zona”, salientou. “Temos tido sorte.”

Aquela é uma estrada “com algum trânsito, que aumenta nos meses de férias de Verão, com as pessoas a usá-la para chegar ao Algarve.” Por isso foram colocados sinais de trânsito a alertar para perigo de linces. “A Estradas de Portugal, um dos parceiros do projecto, está a fazer a limpeza da vegetação nas margens da estrada, para permitir uma maior visibilidade dos animais, e nas passagens hidráulicas subterrâneas, para a vegetação não obstruir a passagem dos animais”, apontou. Pedro Rocha disse ainda que um proprietário tomou a iniciativa de colocar vedações altas num troço relativamente extenso para canalizar os animais para as passagens.

A cooperação dos moradores tem sido crucial para os linces. “Na área do lince há algumas povoações dispersas mas a densidade humana é muito baixa”. Vários têm sido os moradores que têm visto linces, “por vezes na estrada, outras em caçadas. E dizem-nos isso, o que nos deixa contentes.”

Agora, com as notícias do nascimento da cria de Jacarandá, Pedro Rocha recebeu inúmeras mensagens de pessoas de Mértola a felicitá-lo. “É um processo que se vai ganhando.”

 

Agora é a sua vez. Saiba o que fazer quando vir um lince.

Ver linces-ibéricos em Portugal já não é assim tão impossível. É preciso estar preparado. Pedro Rocha deixa algumas sugestões que podem ajudar à conservação da espécie.

Se vir um lince deve ter atenção à cor da coleira, já que cada animal reintroduzido traz uma coleira emissora de cor diferente. Por exemplo, a Jacarandá tem uma coleira vermelha. Depois, o Parque Natural do Vale do Guadiana agradece o seu contacto para:

Telefone: 286.612.016

Email: pnvg@icnf.pt

E há que ter muita atenção aos sinais da estrada entre Mértola e Beja. “Os linces estão nessa zona. A sério. Aqueles sinais não são só folclore. Há linces a passar”, salienta Pedro Rocha. Existem mais hipóteses de os encontrar durante os períodos crepusculares (ao amanhecer e ao anoitecer), já que é quando os animais estão mais activos.