Fotos: Miguel Dantas da Gama

Gorges du Verdon: uma caminhada por um dos mais belos desfiladeiros da Europa

Dias com Vida Selvagem

Miguel Dantas da Gama percorreu 15 quilómetros no coração do Parque Natural Regional de Verdon, área protegida com cerca de 180.000 hectares no Sul de França.

Refúgio de montanha de Chalet de La Moline. Perto deste, aparcamos o automóvel, precisamente no dia que dividiu a meio o mês de junho deste ano.

Faz calor. Procedemos aos últimos ajustes do equipamento que nos facilitará a caminhada e com que a registaremos ao longo de cerca de 15 quilómetros de extensão. 

Não demora muito até iniciarmos a primeira descida de aproximação ao leito do rio Verdon.

Dirigimo-nos ao Pas d´Issane. Depois à Gruta de Baume-aux-Boeufs.

As vistas estreitam-se brutalmente quando o trilho nos encaminha para uma passagem, sem alternativa, em que progredimos numa escada metálica, vencendo o estreito Cavaliers sob escarpas de 300 metros de altura.

Aproximamo-nos da impressionante Bréche Imbert. Mais escadas para os 100 metros de desnível que se vencem rapidamente. Por aqui o trilho bifurca-se. Se no nosso percurso devemos seguir pelo acesso da esquerda, um desvio de meia hora impõe-se para acedermos à Mescla, o local onde as águas do L´Artuby se misturam com as do Verdon. Daí o nome. Imperdível.

Por aqui vislumbram-se sinais do Sentier de L´Inbut, um percurso mais técnico, desafiante, pelas passagens sobre precipícios que nele há que transpor.

Regressamos à encruzilhada de caminhos para prosseguir no percurso que escolhemos fazer hoje.

Durante algum tempo continuamos a caminhar por tramos acidentados, sempre envolvidos por enormes e esmagadoras escarpas, admirando imponentes penhascos.

Pouco a pouco as perspectivas alargam-se, a pedra vai cedendo lugar a uma vegetação luxuriante que até aqui só conseguia preencher os interstícios da rocha nua. O rio, próximo, acompanha-se cada vez mais de perto, aprecia-se melhor. Umas vezes debatendo-se por entre as fragas que se interpõem no seu leito, noutras progridindo mais calmo em troços suaves. Relativamente suaves, estamos em plena montanha!

Seguimos para Baume aux Chiens, alcançamos a praia de Baume-Fères, altura em que o trilho quase toca os seixos da margem do Verdon. Daqui tem-se uma vista apertada do vale, mas a suficiente para atestar a enormidade e sumptuosidade das encostas que o envolvem. 

Após a pausa que o lugar sugere, voltamos ao trilho. Mais subidas e descidas nos aguardam. Há que vencer novos declives, degraus em zonas pedregosas, sempre sob paredes calcárias enormes.

Ganhamos muita altura, afastamo-nos do leito do rio, passamos por ganchos do percurso nos quais se conseguem conferir perspectivas grandiosas do vale, das suas paredes, do bosque fantástico que por todo o lado as rodeia e, claro, do rio que, agora lá muito em baixo serpenteia. O seu tom azul turquesa contrasta com tudo o resto que o rodeia.

Bem acima de nós, três grifos atravessam o vale. A espécie de abutre que se tornou comum, alguns anos após a sua reintrodução na região. Ouvem-se gralhas-de-bico-vermelho.

O percurso torna-se finalmente mais suave, menos desnivelado. O bosque que nos envolve é agora dominante. Enormes manchas de quercíneas e de buxo impenetrável. A importância do vale também se deve aos seus zimbrais.

Aproximamo-nos do final da travessia. Antes porém ainda vamos experimentar uma sensação forte, uma variação brusca de temperatura. Para progredir no canhão, houve que abrir três túneis. As passagens de Baumes, de Trescaire (110 metros de comprimento) e Du Baou (670 metros) fazem-se à luz de frontais, num solo acidentado e escorregadio.

A meio do túnel mais extenso podemos apreciar a vista da estreita garganta por onde aí o Verdon progride, através de uma abertura lateral na parede que quebra a mais completa escuridão. Ao calor que nos acompanhou ao longo de todo o percurso sucede-se um frio que por ser brusco e repentino. Vestimos rapidamente um forro polar antes que o suor faça das suas e nos ameace afectar o dia que nos resta nesta breve digressão por terras de França. 

Estamos em Couloir Samson, mais alguns degraus metálicos aproximam-nos de novo do rio. Passamos bem ao lado do seu leito, atravessamos uma ponte sobre um pequeno afluente que se despenha em cascata e subimos pelos últimos degraus, finalmente para Point Sublime. O nome revela a vista que se abarca do «buraco» de onde saímos se olharmos para o que fica para trás. Um placard detalha toda a travessia.

Tendo vencido um desnível de cerca de 700 metros, acabamos de percorrer o Sentier Blanc-Martel, o mais conhecido dos percursos das Gorges do Verdon, com o nome dos dois homens que o descobriram e o promoveram. Denominado o Grand Canyon de França situa-se entre as povoações de Castellane e Moustiers Sainte Marie, nas regiões de Alpes de Haute Provence e do Var. 

O acesso ao início do percurso deve ser feito a partir de Palud Sur Verdon. A estrada que se percorre até La Maline, denominada Route des Crêtes, indicia, como o seu nome indica, o que se vai desfrutar ao longo do dia. Uma progressão constante sob falésias calcárias e diante de espectaculares precipícios.

As Gorges do Verdon são um importante canhão fluvial, constituindo o coração do Parc Naturel Regional du Verdon, área protegida francesa com cerca de 180.000 hectares, criada em 1997.

O seu património natural é valioso. No vasto conjunto das suas mais de 2.000 espécies de flora constam vários endemismos. Igualmente importante é a sua fauna de montanha. A título de exemplo, ocorrem no parque cerca de 180 espécies de aves. Praticamente todas as grandes aves de rapina europeias estão aqui presentes.