Foto: Luís Silva

Há um novo bicho-de-conta descoberto para a ciência em Portugal, na região Oeste

A espécie agora descrita foi encontrada pelo investigador Luís Pascoal da Silva. Junta-se aos cerca de 70 isópodes terrestres já conhecidos no território continental.

O novo Eluma matae foi descrito para a ciência num artigo publicado pelo European Journal of Taxonomy, no final de Fevereiro, e é o mais recente membro dos animais a que chamamos bichos-de-conta. Estes animais pertencem a várias famílias de isópodes terrestres – crustáceos geralmente achatados e sem carapaça – e têm a uni-los uma característica comum: “a capacidade de se enrolar numa forma esférica lembrando uma ‘conta’, daí o nome”, nota Luís Silva, que trabalha como investigador no CIBIO-InBIO BIOPOLIS, ligado à Universidade do Porto.

O novo bicho-de-conta foi encontrado no âmbito de uma colaboração entre Luís Silva e um investigador espanhol especialista neste grupo, Júlio Cifuentes, que já descreveu algumas novas espécies para Espanha e é o primeiro autor da descrição científica agora publicada. Os dois têm vindo a trabalhar no levantamento e distribuição das diferentes espécies deste grupo em Portugal continental, “dado que havia pouca informação disponível, com excepção das espécies cavernícolas, para as quais existe trabalho feito pela Sofia Reboleira nos últimos anos”, indica o mesmo responsável.

Quanto ao Eluma matae, foram descobertos exemplares “em quatro locais distintos, a maioria próximo da vila de Óbidos, mas foram observados também perto do extremo sudoeste do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros”. Foi Júlio Cifuentes quem identificou estes bichos-de-conta como sendo uma nova espécie, pois ao encontrá-los pela primeira vez, Luís Silva acreditou tratar-se de “uma variação da Eluma tuberculata, uma espécie do mesmo género que tem algumas semelhanças à vista desarmada com a agora descrita”.

Bicho-de-conta da nova espécie Eluma matae, enrolado (imagem superior) e desenrolado. Fotos: Luís Silva/Biodiversity4all

“É importante notar que muitas vezes, para confirmar a identidade de uma espécie, é necessário que certos detalhes anatómicos sejam verificados à lupa ou microscópio”, sublinha o investigador.

Para já, a equipa acredita que a nova espécie estará “confinada à região Oeste e zonas limítrofes”, mas é possível que possa ser encontrada também noutros locais, pois “é necessário mais trabalho para delimitar a sua distribuição”.

O que é um bicho-de-conta?

Para encontrar estes e outros bichos-de-conta, Luís Silva procurou em “micro-habitats favoráveis”, como por exemplo “debaixo de rochas, troncos e folhas e ramos secos”, informa o artigo científico agora publicado.

Em Portugal, indica este cientista, os bichos-de-conta pertencem geralmente a duas famílias com nomes muito semelhantes, a Armadillidae e a Armadillidiidae. É essa última que inclui aliás a nova espécie, tal como outras duas também do género Eluma, cujas áreas de distribuição foram agora actualizadas.

Mas independentemente da família em que estão integrados, os bichos-de-conta integram a subordem Oniscidea, que reúne todos os isópodes terrestres. Dentro desse grupo, os bichos-de-conta são “isópodes terrestres que se enrolam”. Já a subordem Oniscidea está dentro da ordem Isopoda, “que inclui todos os isópodes, incluindo os aquáticos”. E se formos ainda mais longe, essa ordem pertence à classe Malacostraca, a mesma dos camarões, explica Luís Silva.

O que também se sabe é que os isópodes terrestres conviveram com os dinossauros, uma vez que “há diversos registos fósseis, por exemplo em âmbar, do período do Cretáceo – entre 145 a 66 milhões de anos atrás – que sugerem que o grupo já seria bastanta diverso neste período”. Talvez até já cá andassem antes, mas até hoje não surgiram evidências, nota o investigador.

Certo é que a descrição da nova espécie Eluma matae é apenas o primeiro resultado deste trabalho, assevera o mesmo responsável: “Nos próximos tempos irão certamente ser acrescentadas algumas espécies à lista da fauna de isópodes terrestres conhecidas em Portugal, no decurso do nosso estudo.”

Os dois investigadores decidiram também contribuir para a iniciativa IBI: InBIO Barcoding Initiative), do CIBIO-InBIO BIOPOLIS. Este projeto pretende disponibilizar códigos de barras de ADN dos diversos grupos animais, de forma a colmatar parte da lacuna de conhecimento existente sobre a fauna ibérica.


Agora é a sua vez.

Da próxima vez que encontrar um bicho-de-conta, compare-o com estas cinco espécies relativamente comuns em Portugal Continental.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.