O adeus à última glaciação

Portugal nos últimos 10.000 anos

Bruno Pinto, biólogo e pós-doutorando no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, escreve sobre o clima, as plantas e os animais que viveram no território continental português nos últimos 10.000 anos. Uma crónica por mês. Esta é a primeira.

 

A rubrica “Portugal nos últimos 10.000 anos” debruça-se sobre os principais episódios da história do clima, da vegetação, dos animais e dos humanos que viveram no território continental português nos últimos 10.000 anos. A escolha desta data não foi aleatória, uma vez que essa é a linha de separação entre o fim da última glaciação e o início de um período mais quente, no qual temos vivido durante os últimos milhares de anos.

Se quisermos ter uma visão mais global do que aconteceu, podemos imaginar que estamos algures na costa do território português há cerca de 20.000 anos. A paisagem que vemos nesta zona de temperaturas mais amenas é constituída por vegetação rasteira, com árvores como pinheiros e zimbros, que estão bem adaptadas ao frio. Já nesta altura, grupos de humanos exploravam os recursos marinhos e fluviais.

Caminhando para o interior e a uma maior altitude, ocupando grandes áreas, vamos encontrar uma espessa camada de gelo que cobre permanentemente o solo. No entanto, no vale profundo do rio Côa existe um corredor sem gelo, onde grupos de caçadores-recolectores gravam na rocha algumas representações dos animais que costumam caçar. E junto aos rios deste e de outros vales, alimentando-se da vegetação que ali cresce, encontramos a cabra-montês, o cavalo-selvagem, o veado e o auroque (uma espécie de bovino já extinta, semelhante ao touro).

 

Núcleo de Arte Rupestre da Penascosa (Vale do rio Côa). D.R.

Núcleo de Arte Rupestre da Penascosa (Vale do rio Côa). D.R.

 

A temperatura começou a aumentar há 16.000 anos antes do presente. Ou seja, se o território continental português fosse uma posta de pescada congelada, foi nessa altura que o retiraram do congelador.

A partir desta data, apesar de algumas interrupções neste aquecimento, o gelo e os glaciares vão derretendo, e a vegetação típica de climas frios recua gradualmente, até ficar confinada apenas às zonas de montanha.

Ao mesmo tempo, avançam as áreas de floresta, provavelmente acompanhadas pela expansão do castor-europeu, do corço e do javali, entre outras espécies de mamíferos florestais, no território português.

Neste período que marca o final da glaciação, reduz-se também o número de cavalos-selvagens e de auroques. Ainda está por saber, no entanto, se foi por estes grandes animais terem ficado mais limitados às planícies fluviais, em termos de habitat, ou se terá também havido um excesso de caça pelos grupos de humanos.

Chegamos agora ao território continental português há 10.000 anos. A primeira coisa que salta à vista é que a linha de costa se alterou bastante: com o aumento da temperatura, e o derretimento do gelo e dos glaciares a nível global, o nível da água do mar subiu muito nos últimos 6000 anos (uma estimativa aponta para cerca de 60 metros, ficando na linha batimétrica -40 metros relativamente ao presente).

Sabe-se que nesta altura, em território português, os humanos já se alimentavam de peixes, tartarugas, de moluscos marinhos como amêijoas e de crustáceos como os caranguejos. Em menor escala, consumiam também mamíferos marinhos.

É também provável que as populações que viviam nessas zonas costeiras fossem demasiado pequenas para causarem problemas de sobre-exploração. Mas caso ocorressem, o grupo teria apenas de se mudar para outra região costeira, a poucos quilómetros de distância.

E como era a vegetação? Tanto na costa como no interior, predominavam os bosques de carvalhos, azinheiras e sobreiros – exceto no Norte do país, onde as espécies mais comuns eram os pinheiros e as bétulas.

Quanto aos animais, continuaram a ser caçados e representados por caçadores-recolectores nas pedras do vale do Côa. Mas pelo estudo dessas representações e pela pesquisa dos restos de animais, consumidos em diferentes locais, os investigadores perceberam que na ementa habitual passou a constar mais veado “na brasa” e menos cavalo e auroque grelhados. Também os javalis e os pequenos coelhos-bravos eram agora mais consumidos.

Em suma, as mudanças no clima, durante este período de transição, implicaram mudanças na vegetação, na fauna, no nível da água do mar e na alimentação das populações humanas. O território português estava, agora, preparado para um episódio mais quente da sua história…