Marmota. Fotos: Miguel Dantas da Gama

Viagem ao Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido II

Dias com Vida Selvagem

A ponte de San Úrbez é o local de partida para a segunda jornada do roteiro pelo Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido (nos Pirinéus), iniciado na última crónica Dias com Vida Selvagem.

 

Enfiados nas profundezas do canhão de Anisclo, acabamos de percorrer a parte deste vale que há muito foi violado por uma estrada que permite a circulação automóvel num só sentido. O que se vê sob a ponte de San Úrbez é um sinal do que nos espera nas próximas horas.

O rio Bellós corre no fundo de um abismo, entalado por duas paredes verticais rematadas por árvores e arbustos. Escassos metros separam os dois alcantilados marginais.

 

Rio Bellos no Anisclo

Rio Bellos no Anisclo

 

As primeiras centenas de metros são feitas num estradão que leva até à ermida que deu o nome à ponte, construída numa concavidade na base da escarpa que a envolve por completo.

Melros-de-água animam o rio neste breve troço em que a base do vale se alarga um pouco. Logo a seguir, atravessamos de novo a linha de água para a margem direita, altura em que a pista dá lugar a um trilho de pé-posto.

Pouco a pouco, entramos na parte mais interessante do canhão. O trilho aperta-se, a vegetação adensa-se, as quedas de água sucedem-se num leito cada vez mais acidentado. O arvoredo envolve-nos de forma crescente. Mantos espessos de buxo delimitam a senda e as faias dominam o coberto arbóreo em ambas as margens do rio que corre cada vez mais fundo à medida que o declive da nossa subida se acentua.

A dada altura, continuamos a ouvi-lo, mas já não o vemos. Atingimos o troço mais árduo do percurso. Para vencer a escarpa, o trilho entra num zigue-zague assente em degraus esculpidos na pedra. Subimos mais e mais até que a vegetação concede umas tréguas, permitindo voltar a admirar as paredes da outra margem.

Mais umas centenas de metros de subida e eis-nos num patamar do percurso, sugestivamente conhecido por Selva Plana. Estamos de novo imersos em vegetação mas uma pequena abertura onde agora existe um miradouro, deixa-nos desviar do trilho e debruçarmo-nos sobre o rio. Corre umas largas dezenas de metros mais abaixo, no fundo de uma ravina perfeitamente vertical. Encontramo-nos dentro do canhão do Anisclo, mas sob nós pode dizer-se que existe um outro ainda mais apertado.

 

Canhão do Anisclo

Canhão do Anisclo

 

Em frente ao miradouro, à mesma altura mas do lado de lá do rio, uma queda de água despenha-se desde a linha que une os dois canhões. Provém de um barranco, de uma beleza insuperável. São as águas de um pequeno afluente que chegam ali, depois de um percurso inacessível, em degraus sucessivos imersos num faial imenso que cobre a encosta sempre que o fraguedo o permite. Depois precipitam-se no abismo de uma forma soberba, numa queda única que levanta uma nuvem de vapor de água dentro do canhão «inferior».

Recuperados do esforço, prosseguimos, de novo imersos num coberto denso. O rio, no seu percurso contrário ao nosso, caminha agora ao mesmo nível. Com cuidado aproximamo-nos das suas águas. Pisamos um terreno sombrio, húmido e muito escorregadio. As águas, de um azul-turquesa, correm sobre um leito completamente rochoso, antes de entrarem num percurso acidentado e tumultuoso, de sucessivas cascatas que explicam por que andaram tão afastadas de nós. O ambiente é surreal, pristino, selvagem. Um pouco adiante atingimos La Ripareta o local de confluência das águas que provêm do grande barranco de La Pardina, com as do rio Bellos.

O trilho prossegue para montante, agora numa secção mais aberta do vale que nos permite ter perspectivas mais amplas. Dos enormes alcantilados em ambas as encostas despenham-se inúmeras cascatas. Atingimos Foradiello, um pequeno passadiço metálico por onde voltamos a atravessar o rio, um pouco antes de termos um primeiro vislumbre do impressionante Barranco de Capradiza. Voltamos a subir até um novo patamar. O coberto arbóreo a esta altitude é agora dominado pelo pinheiro-negro.

Finalmente abre-se diante de nós toda a cabeceira do vale, desnudada, rematada lá bem no alto pelo Collado do Anisclo, origem de um glaciar antigo. O rio Bellos nasce por ali. Antes, entre o collado e o local de onde já o vemos, o Anisclo recebe as águas provenientes do Collado de Goriz. Sobre a junção dos dois cursos de água, ergue-se a grande muralha da Punta de las Olas e a meia altura desta gigantesca parede calcária, brota uma enorme insurgência de água. É a Fon Blanca, o motivo que leva muitos caminhantes a empreenderem esta extensa subida do Anisclo.

 

Fuen Blanca

Fuen Blanca

 

A passagem de uma águia-real é anunciada pelos guinchos vibrantes das marmotas, um alarme que as faz correr para as suas tocas.

O Anisclo motivaria várias crónicas. O percurso escolhido para esta é o que nos permite senti-lo da forma mais intensa, literalmente da cabeça aos pés. Mas para ter uma visão esclarecedora do que se trata, há que subir a qualquer um dos lados do plateau que este singular canhão continua a rasgar, com arte e magnificência. Uma das melhores abordagens faz-se pela remota aldeia de Bestué. Uma extensa pista em terra batida e uma caminhada fácil de uma hora, colocam-nos na aresta do topo da encosta da margem esquerda da garganta. A vista é indescritível.

Para jusante, os cumes das Alto Sestrales e do Mondoto, elevam-se dominadores. Para montante abarca-se alta-montanha até aos cumes mais elevados deste sector da cordilheira pirenaica. As Tres Sorores e as Tres Marias são os picos que mais alto tocam o céu. Sob nós estendem-se o grande desfiladeiro, o imenso bosque que ele encerra e os profundos meandros por onde andamos.

Sobre nós, um par de quebra-ossos evoluem num voo vigoroso, próprio de uma ave com quase três metros de envergadura, completando um dos melhores cenários de montanha que conheço.