Amêijoa-japonesa (Ruditapes philippinarum). Foto: Paula Chainho

Águas estuarinas e marinhas portuguesas têm 133 espécies não indígenas

Ciência

Nas áreas e lagoas costeiras e estuários de Portugal vivem 133 espécies não indígenas, a maioria originária da região do Indo-Pacífico, revela a mais completa e recente listagem das exóticas, publicada na revista Estuarine, Coastal and Shelf Science.

 

Os arquipélagos da Madeira e dos Açores são os ecossistemas mais ocupados por espécies não indígenas – ou seja, espécies não nativas introduzidas pelo Homem em locais fora da sua área de distribuição geográfica natural – e os mais susceptíveis a bioinvasões, conclui o estudo, coordenado por Paula Chainho, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e representante nacional no Grupo de Trabalho para as Espécies Não Indígenas (WGITMO) do Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES).

Por exemplo, nos Açores – onde aportam barcos de cruzeiro transatlânticos – a temperatura da água do mar é mais quente e estável ao longo do ano, o que favorece o estabelecimento de espécies não indígenas.

Em Portugal continental, são os estuários e sistemas lagunares de maiores dimensões – como os estuários do Tejo, Vouga e Sado e lagoa de Santo André – que têm mais espécies exóticas. No geral, os autores verificaram um aumento no número destas espécies de norte para sul.

A maioria das espécies identificadas neste estudo, cujo trabalho de investigação começou em 2008 e se baseou na compilação de trabalhos anteriores, pertence ao grupo das macroalgas.

Algumas das exóticas são invasoras por causa dos impactos que causam. “A amêijoa-japonesa (Ruditapes philippinarum) apresenta populações estabelecidas, por exemplo, no estuário do Tejo, na ria de Aveiro e na Lagoa de Óbidos onde acabou por se desenvolver uma população piscatória que explora o recurso”, afirma Paula Chainho. “No entanto, esta invasão terá conduzido muito provavelmente ao colapso quase total da amêijoa-boa (Ruditapes decussates) por competição, embora a sobre-pesca tenha também contribuído”. O caranguejo-chinês (Eriocheir sinensis) é outra espécie invasora comum em muitos países da Europa, nomeadamente na Alemanha onde foi já considerada uma praga. Foi reportada para Portugal nos estuários do Minho e do Tejo onde, em particular, apresenta uma abundância significativa distribuindo-se até à barragem de Belver. A amêijoa-asiática (Corbicula fluminea) é um bivalve não indígena invasor que habita na zona superior dos estuários e nos rios e que tem impactos socioeconómicos, por exemplo, no estuário do Mondego. Esta amêijoa “invade os canais de rega e incrusta, obstruindo-os o que implica a sua posterior remoção”, explica Paula Chainho.

 

Uma invasão que chega “a bordo” dos navios

 

“A introdução de espécies não indígenas em todas as áreas de estudo estará relacionada com a navegação, nomeadamente com a descarga de águas de lastro e incrustação”, afirmam os autores do trabalho, publicado naquela revista em Junho, muito embora não tenha sido possível determinar o vetor de introdução para um número considerável de espécies.

A investigação descobriu que a maioria das espécies introduzidas na costa de Portugal Continental são nativas da região Indo-Pacífica, enquanto as observadas nos Açores e na Madeira são maioritariamente originárias do mar Mediterrâneo e do Oceano Atlântico.

A generalidade dos navios que aportam em águas portuguesas provém de circulação nacional ou de portos europeus. Por isso, os autores acreditam que a maioria das introduções em Portugal foi secundária, ou seja, decorreu a partir de outras regiões da Europa, onde as espécies não indígenas terão chegado por transporte marítimo através do Canal do Suez.

Dado o passado histórico de Portugal, que contempla as mais antigas rotas de transporte marítimo, os investigadores acreditam que as bioinvasões marinhas em águas nacionais ocorreram consistentemente ao longo dos séculos.

 

Uma lista inacabada

 

Até há uns anos, Portugal estava entre os países com o mais baixo número de espécies não indígenas registadas nas bases de dados nacional e europeia. Esta lista – com as tendências de abundância, ocorrência temporal e distribuição destas espécies exóticas – é necessária para avaliar o cumprimento do bom estado ambiental no âmbito da Directiva Quadro para a Estratégia Marinha europeia. Agora, este estudo actualizou a lista. Ainda assim, é um trabalho inacabado, dizem os investigadores. “Da última atualização enviada para o ICES constam já duas novas espécies: a dourada na Madeira e o fundulo (Fundulus heteroclitus) na zona superior do estuário do rio Guadiana, as duas únicas espécies não indígenas de peixes até agora conhecidas em estuários e zonas costeiras de Portugal”, refere Paula Chainho.

A introdução destas espécies é um problema ambiental mundial, representando uma das causas mais importantes de alteração da biodiversidade, nomeadamente em ecossistemas costeiros e estuarinos.

No entanto, “os impactos das espécies não indígenas não têm de ser necessariamente negativos, tendo em conta que as espécies introduzidas podem constituir novos recursos a explorar trazendo benefícios socioeconómicos”, acrescenta Paula Chainho.