Leão Cecil numa área de estudo. Foto: A. Loveridge

Algo está a acontecer aos leões em África

Ciência

Hoje vivem cerca de 20.000 leões (Panthera leo) em África. Dentro de 20 anos, o mais certo é que tenha desaparecido metade, alerta um novo estudo nesta semana. Uma outra equipa de cientistas defende que a sua sobrevivência depende da criação de corredores entre áreas protegidas.

 

Em muitas regiões de África, especialmente no Centro e Oeste, as populações de leões estão em declínio rápido, alertou nesta segunda-feira um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS). Mesmo na zona Oriental de África, tida como o bastião da espécie, os números estão a diminuir. E quase todas as populações com, pelo menos, 500 indivíduos, também estão a ser reduzidas.

Estes dados foram o resultado do trabalho de uma equipa de cientistas internacionais que se juntou para olhar para o que tem estado a acontecer a 47 populações diferentes de leões em África. Apenas em quatro países os números estão a subir: Bostwana, Namíbia, África do Sul e Zimbabwe.

“O declínio dos leões pode ser travado”, considera Hans Bauer, o autor principal do estudo e membro da WildCRU, da Universidade de Oxford. “Mas, infelizmente, a conservação dos leões não está a acontecer a larga escala, o que leva a um estatuto vulnerável da espécie a nível global”, acrescenta. Na verdade, diz também, “o declínio em muitos países é bastante grave e tem implicações enormes”.

A nível mundial, os leões estão classificados com estatuto Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN); ainda assim, na África Ocidental, a espécie está Criticamente Ameaçada de Extinção.

“Muitas populações de leões já desapareceram ou deverão desaparecer dentro de poucas décadas”, comenta Luke Hunter, co-autor do estudo e presidente da organização Panthera. “O leão tem um papel crucial como principal carnívoro do continente e a queda das populações que hoje vemos pode alterar os ecossistemas de África.”

Mas há diferenças. A Sul, os esforços de conservação estão a resultar, principalmente, por causa da reintrodução de leões em reservas pequenas, vedadas e geridas para a conservação. “Se não fizermos nada rapidamente e a uma escala considerável, as populações geridas no Sul de África serão um substituto pobre para as populações que vivem em liberdade nas icónicas savanas da África Oriental. Na nossa opinião, isso não é uma opção”, diz Paul Funston, director do Programa de Leões da Panthera.

 

Sobrevivência dos leões pode depender da criação de corredores

 

Hoje foi publicado um artigo na revista Lanscape Ecology que defende a criação de corredores ou a instalação de vedações direcionais para orientar os leões entre áreas protegidas.

Nos últimos seis anos, cientistas do Serviço de Florestas dos Estados Unidos e da Universidade de Oxford têm colaborado para compreender como se movimentam os leões em África, a fim de conservar a diversidade genética e as populações.

Este estudo focou-se na Área de Conservação transfronteiriça do Kavango-Zambezi (KAZA) e concluiu que a conectividade na paisagem é crucial para a sobrevivência da espécie.

Os investigadores estudaram as capacidades de dispersão dos leões e compararam-nas com nove cenários diferentes de paisagem, incluindo por exemplo a redução de áreas protegidas, duplicação das populações humanas, mudança do uso do solo pela agricultura e pastoreio.

“Ficámos surpreendidos ao ver que as populações de leões são muito vulneráveis à perda e fragmentação de habitat, uma vez que estão entre os animais com maior capacidade de dispersão de África”, diz Samuel Cushman, da Estação de Investigação das Montanhas Rochosas, do Serviço de Florestas dos Estados Unidos e autor principal do estudo.

“Os nossos resultados mostram que as áreas protegidas são cruciais para a sobrevivência futura do leão africano. E a criação de corredores ou de mecanismos de orientação entre áreas protegidas é igualmente crucial para que os leões possam ser direccionados para outros habitats adequados e se afastem de zonas de conflito”, acrescenta.