A expedição científica a bordo do navio oceanográfico RSS Discovery terminou. Vinte e cinco dias e 5.000 quilómetros depois, Paulo Catry ficou com uma certeza: o Atlântico Norte ainda é extraordinariamente rico e selvagem. Esta foi a última crónica Diário de Bordo deste investigador do MARE-ISPA. 

 

1 de Julho – Após 25 dias de navegação, e os últimos dez dias sem um raio de sol que não fosse filtrado por espessas camadas de nuvens ou nevoeiro, avistamos a costa da Terra Nova. Duas horas volvidas e, por compaixão ou hospitalidade, o céu limpa-se finalmente enquanto entramos nas estreitas portas naturais do porto de St John’s.

 

Terra à vista! Finalmente, após 25 dias de viagem o continente americano surge no horizonte

 

Belas paredes de granito cor-de-rosa e a surpresa de rever árvores e arbustos. Uma baleia-anã (Balaenoptera acutorostrata) atravessa-se à proa do navio, literalmente a duas ou três centenas de metros da entrada do porto, enquanto papagaios-do-mar (Fratercula arctica), alcatrazes (Morus bassanus) e gaivotas-tridáctilas (Rissa tridactyla) pescam em redor. Chegámos.

Os computadores estão agora cheios de dados de contagens de aves e de mamíferos marinhos, de medições dos mais diversos parâmetros oceanográficos, e as nossas cabeças repletas de imagens e recordações. Na bagagem vão também colheitas de água para análises mais finas em laboratório, e penas e outras amostras recolhidas das 46 aves que capturámos (19 painhos-de-cauda-forcada, 14 fulmares e 13 pardelas-de-barrete). Outros dados ainda nos chegarão mais tarde, via satélite, dos micro-GPS colocados em 10 pardelas, “pescadas com rede” e prontamente libertadas há dois dias atrás.

A maior parte dos resultados da expedição só serão percetíveis depois de tudo analisado e reportado, num processo que certamente levará um bom par de anos. Mas uma coisa é já clara depois de mais de 5.000km de cruzeiro: apesar da sobrepesca, da poluição, dos efeitos perenes da antiga caça a baleias e a aves marinhas, e de tantas outras agressões que vamos infligindo aos oceanos, o Atlântico Norte ainda é extraordinariamente rico e selvagem. Nele encontrámos 10 espécies de cetáceos (incluindo as carismáticas baleias azuis – 6 indivíduos), duas dezenas de espécies de aves marinhas do alto-mar (incluindo aves vindas de tão longe como a Antártida – caso dos moleiros-antárticos Stercorarius maccormicki), tubarões, atuns, peixes-lua, tartarugas, medusas, lulas e muitos outros invertebrados.

É hora de dispersar. Cada um irá para seu lado, as próximas colaborações científicas serão feitas à distância. Por mim, daqui por duas semanas estarei nos Açores, no Corvo, a trabalhar com estas mesmas cagarras que fomos vendo pelo caminho (mas que nunca se deixaram apanhar), colhendo mais amostras e colocando transmissores para seguimento remoto, para assim com elas continuar a viajar e a explorar esse vasto Atlântico.

 

Diário de bordo de Paulo Catry

Leia aqui as crónicas de Paulo Catry, investigador português que está a a bordo do navio RSS Discovery no Atlântico Norte. Conheça aqui mais sobre esta expedição científica internacional.