Floresta Amazónica. Foto: Rosa Maria/Pixabay

Área desflorestada na Amazónia mais do que triplicou no último ano

Monitor

A maior floresta tropical do mundo perdeu 2.254,9 quilómetros quadrados no último ano, face aos 596,6 quilómetros quadrados registados em Julho de 2018. Governo brasileiro diz que estes números são “mentirosos” e afasta director do INPE.

Em Julho deste ano, a desflorestação na Amazónia registou um aumento de 278% em comparação com Julho de 2018, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), organismo do Ministério brasileiro da Ciência e Tecnologia, citados pelo jornal O Globo.

Os dados dizem respeito a nove estados com alerta de desflorestação: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondónia, Roraima e parte dos estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão.

Este acompanhamento da desflorestação e degradação da Amazónia é feito pelo DETER (Detecção do Desmatamento em Tempo Real) do INPE, baseado em imagens de satélites de observação da Terra. O objectivo, explica o INPE, é “orientar a fiscalização em campo, feita pelos órgãos competentes” e “garantir acções eficazes de controlo do derrube da floresta”.

A 19 de Julho, o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro – que tem promovido a flexibilização do licenciamento ambiental no Brasil desde que assumiu funções a 1 de Janeiro de 2019 – questionou os dados do próprio Governo numa conferência de imprensa com jornalistas estrangeiros.

O INPE foi então acusado de mentir sobre os dados da desflorestação que, nos últimos dois meses, têm indicado uma forte aceleração no abate de árvores na Amazónia. “Com toda a devastação que vocês nos acusam de estar a fazer e de ter feito no passado, a Amazónia já se teria extinguido”, afirmou, citado pelo jornal O Globo.

Na mesma ocasião, Bolsonaro disse suspeitar que o então director do INPE, o físico Ricardo Magnus Osório Galvão, estaria “ao serviço de alguma ONG” (organização não governamental).

No seguimento destas declarações, Ricardo Galvão – que esteve à frente do INPE desde 2016 – veio reafirmar a correcção dos dados do INPE e salientar que a metodologia usada é reconhecida internacionalmente.

Dias depois, a 2 de Agosto, Ricardo Galvão foi exonerado do cargo, sendo substituído por Darcton Policarpo Damião, oficial da Força Aérea, como director interino. 

Segundo disse Ricardo Galvão à BBC, a crise que acabou na sua demissão resultou de um longo desgaste com o ministro do Ambiente Ricardo Salles. Este chegou a anunciar que poderia contratar uma empresa privada para substituir o INPE na monitorização das desflorestação.

Reacções à crise na Amazónia

A saída de Ricardo Galvão, oficializada nesta quarta-feira dia 7 de Agosto, foi considerada “significativamente alarmante” por Douglas Morton, director do Laboratório de Ciências da Biosfera no Centro de Voos Espaciais da NASA (Agência espacial norte-americana). “Não acredito que o Presidente Jair Bolsonaro duvide dos dados produzidos pelo INPE, como diz. Na verdade, para ele, são inconvenientes. Os dados são inquestionáveis”, disse hoje Douglas Morton à BBC.

O responsável da NASA, que tem acompanhado de perto a floresta Amazónia nos últimos 18 anos, considera ainda que “a demissão de Galvão choca a comunidade científica pois envia um alerta sobre como o actual Governo brasileiro encara a Ciência”.

O aumento da desflorestação na maior floresta tropical do planeta chamou a atenção dos meios de comunicação social internacionais. A 2 de Agosto, a revista inglesa The Economist dedicou a capa ao avanço da desflorestação da Amazónia e escreveu que Jair Bolsonaro “deixou claro aos infractores que não têm nada a temer”.

A revista científica Nature chamou a Bolsonaro “Trump tropical” e o jornal The Guardian referiu-se ao ritmo mais alarmante quanto ao abate de árvores na história recente.

A Greenpeace Brasil também reagiu. “O INPE é uma instituição mundialmente reconhecida que, há mais de 30 anos, presta serviços de excelência na monitorização da desflorestação”, comentou, em comunicado, Mário Astrini, coordenador de Políticas Públicas da Greenpeace.

“Ao colocar em dúvida os dados do instituto, o Governo apenas tenta esconder a verdade. Em vez de lutar contra os factos e a Ciência, o Governo deveria cumprir o seu papel de proteger o património ambiental dos brasileiros.”

Esta organização sublinha que, nos primeiros seis meses de 2019, a quantidade de multas por crimes contra a flora caiu 23% em comparação com a média do mesmo período nos últimos cinco anos. Também caiu o número de operações de fiscalização realizadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) na Amazónia.

A região da Amazónia alberga 600 tipos de habitats terrestres e de água doce e cerca de 30% de todas as espécies do planeta. Mais de 30 milhões de pessoas vivem e dependem dos recursos naturais da Amazónia. Mas muitas mais na América do Norte e Europa estão sob a influência climática da região.

Segundo a organização internacional WWF, a floresta da Amazónia não apenas albergam a mais impressionante diversidade de vida na Terra mas também retém entre 90 e 140 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono, o que a torna crucial no combate às alterações climáticas.