Estudo revela que envenenamento ilegal atinge 47 vertebrados na Península Ibérica

Crias de raposa (Vulpes vulpes). Foto: Michael L. Baird/Wiki Commons

As raposas surgem como as grandes consumidoras de iscos envenenados, mas muitos outros animais, incluindo roedores, lagartos e cobras, lobos, ursos, abutres e grandes águias são vítimas de envenenamento ilegal em Espanha e Portugal.

 

No estudo, publicado este mês na revista científica Biological Conservation, colaboraram investigadores da Universidade Autónoma de Madrid (UAM), do Instituto Mixto de Investigación en Biodiversidad e do Instituto de Investigación en Recursos Cinegéticos, em parceria com a associação Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural e com o Parque Nacional de Monfragüe, uma área protegida em Espanha.

Não é tarefa fácil identificar todas as espécies selvagens afectadas pelos envenenamentos ilegais, um problema que atinge os dois países da Península Ibérica. Os animais mortos ficam muitas vezes por encontrar, escondidos no campo ou nos seus abrigos.

E por isso, para chegar aos resultados, a equipa de investigadores começou por realizar experiências de campo um grande escala, com a colocação e análise de 590 iscos simulados distribuídos pelos principais sistemas da Península Ibérica, em 25 áreas diferentes vigiadas por câmaras de foto-armadilhagem, incluindo o Nordeste de Portugal.

Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) registado pelas câmaras de foto-armadilhagem durante o estudo. Foto: Olea et al 2022

A utilização de iscos envenenados – restos de carne e de outros alimentos ou cadáveres de animais impregnados com produtos tóxicos – é um dos métodos principais da perseguição ilegal a espécies selvagens. Muitas vezes, quem comete este crime quer atingir animais encarados “como ameaças aos interesses humanos, em resultado de conflitos de conservação tais como a predação de gado, estragos em culturas ou concorrência pela fauna cinegética”, nota a UAM, numa nota publicada sobre o novo estudo.

Outra das motivações é o uso de partes desses animais para o tráfico ilegal, o que acontece por exemplo com o marfim  ou partes de abutres noutros países.

Mais espécies de aves

Os dados obtidos foram ainda analisados com recurso a técnicas estatísticas baseadas em cripto-análise, de forma a estimar, a partir da biodiversidade observada a consumir os iscos, qual terá sido toda a biodiversidade afectada.

Os registos obtidos no campo totalizaram 3.095 animais de 39 espécies diferentes observados a consumir os iscos simulados, incluindo 22 espécies de aves, 15 de mamíferos e duas espécies de répteis.

Mas a equipa identificou um número maior, num total de 47 espécies de vertebrados, que “são susceptíveis de envenenamento na Península Ibérica”, tendo em atenção o facto de muitos dos animais envolvidos serem consumidos por outros.

As espécies em risco de envenenamento, identificadas pelos investigadores, incluem lobos, ursos e grandes águias, como a águia-de-asa-redonda e o milhafre-real, mas também pequenos roedores, lagartos e cobras.

Raposas, corvos e fuinhas entre os mais seduzidos

Ainda assim, a raposa foi “de longe” a espécie que mais consumiu os iscos, detectada em quase metade do total de amostras, salientam os investigadores no artigo. Outras espécies que se fizeram notar mais foram corvos-comuns e gralhas-pretas, ratos, grifos, martas e fuinhas e ainda javalis.

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Corvo-comum (Corvus corax). Foto: Francesco Veronesi / Wiki Commons

Por outro lado, os grifos foram os que estavam presentes em maior número, totalizando 42% do total de animais observados a consumir os iscos.

Das espécies detectadas, 38% estão hoje ameaçadas de extinção, ou quase ameaçadas, marcando lugar nas Listas Vermelhas de Portugal e Espanha ou na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Em causa estão por exemplo o lobo-ibérico, o grifo, o abutre-preto, águia-d’asa-redonda, corvo-comum e abutre-do-Egipto.

Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo). Foto: Martin Mecnarowski/Wiki Commons

Além de revelar a identidade das espécies em risco de envenenamento ilegal, o estudo agora publicado desenvolve métodos estatísticos que ajudam a prever o número de espécies e de animais afectados de acordo com o tipo de isco utilizado e o habitat onde foi colocado, indica por sua vez a UAM. Isto porque essas diferenças, em cada caso, têm influência sobre as espécies que podem ser atingidas.

Com os resultados encontrados, a equipa espera “ajudar a conhecer a verdadeira dimensão do impacto do envenenamento de fauna nos ecossistemas”, de forma a melhorar as tarefas de fiscalização e a combater melhor “esta séria ameaça para a biodiversidade”.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.