Floresta. Foto: Aymanjed Jdidi/Pixabay
Floresta. Foto: Aymanjed Jdidi/Pixabay

Jorge Palmeirim: “Décadas após a sua criação, a Rede Natura 2000 continua num inaceitável limbo de gestão”

O que pode 2021 trazer para a Biodiversidade e para a Conservação da Natureza? Com o ano que começa, a Wilder lança cinco perguntas a especialistas e responsáveis portugueses que trabalham para conhecer ou proteger o mundo natural.

Jorge Palmeirim é professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Presidente da Direção Nacional da Liga para a Protecção da Natureza.

WILDER: O que espera de 2021 para a Conservação da Natureza em Portugal e no mundo?

Jorge Palmeirim: A conservação da Natureza está finalmente a entrar nas prioridades políticas, principalmente devido a uma crescente pressão da sociedade, cada vez mais consciente da importância da natureza em geral e da biodiversidade em particular. Os jovens estão também a aperceber-se de que uma política focada, e por vezes mesmo controlada, por interesses económicos de curto prazo, está a esbanjar a sua herança ambiental e com isso a comprometer a qualidade de vida no futuro. As iniciativas recentes dos jovens para contrariar esta política foram uma lufada de ar fresco com consequências muito positivas.

Em resposta a este recente aumento da atenção da sociedade ao ambiente e à conservação da natureza, a União Europeia (UE) aprovou recentemente o Pacto Ecológico Europeu e a Estratégia de Biodiversidade para 2030. O potencial grande impacto destes instrumentos deixa-me cautelosamente otimista quanto ao percurso da conservação da natureza em 2021 e nos anos mais próximos na Europa em geral e em Portugal. No resto do Mundo a situação varia naturalmente entre regiões e países, mas nos trópicos, apesar de algumas meritórias exceções, vamos continuar a assistir a uma deprimente perda de valores naturais. 

W: No seu entender, quais devem ser as prioridades para este ano em prol da natureza em Portugal? E mais concretamente, para a presidência portuguesa da União Europeia?

Jorge Palmeirim: Portugal tem, com esta presidência, uma oportunidade de brilhar em realizações em prol da conservação da natureza, pois tem ao seu dispor importantes instrumentos estratégicos, recentemente aprovados e em fase de lançamento. Neste contexto, a grande prioridade da Presidência Portuguesa deveria ser assegurar uma correta e ambiciosa aplicação da Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, em toda a Europa comunitária. Isso implicaria, por exemplo, um forte investimento na melhoria da gestão das áreas protegidas, em terra e no mar, e na geração de recursos humanos e financeiros para esta tarefa crítica.

A UE estabeleceu como grande objetivo o restauro dos ecossistemas em 15% da sua área terrestre e marinha. Seria tremendamente importante dar um grande impulso inicial a este processo, colocando finalmente a Europa numa trajetória de recuperação de um longo período de destruição dos seus ecossistemas. Tanto o restauro dos ecossistemas como a gestão das áreas protegidas ganhariam muito com uma boa articulação com a Política Agrícola Comum, pelo que essa articulação deveria receber a atenção da Presidência Portuguesa. Naturalmente estas prioridades a nível Europeu são-no também a nível de Portugal, onde as nossas autoridades deveriam dar um bom exemplo ainda durante a Presidência Portuguesa.

W: Quais as espécies ameaçadas que, na sua opinião, precisam de ajuda premente em 2021? 

Jorge Palmeirim: É difícil escolher entre tantas que precisam de ajuda… Foi divulgada recentemente a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal, que contou com a colaboração dedicada de numerosos especialistas e identificou um grande número de espécies de plantas ameaçadas. Pouco ou nada tem sido feito pela preservação de plantas ameaçadas, em parte por falta de informação, pelo que há agora imenso por fazer. 

As grandes rapinas, apesar de alguma recuperação observada recentemente em resultado de projetos de conservação, continuam a ter uma situação populacional muito frágil e a precisar muito de medidas de conservação ativa.

Após anos de recuperação populacional a abetarda, o sisão, e talvez outras aves estepárias, estão agora a declinar assustadoramente. As causas deste declínio ainda não estão completamente esclarecidas, mas a mais grave parece ser a degradação recente do seu habitat, cada vez mais afetado pela intensificação agrícola. Uma parte importante das zonas de nidificação destas espécies está integrada em áreas da Natura 2000, o que lhes confere alguma proteção, mas o mesmo não acontece com os habitats de que dependem fora da época de nidificação, que é urgente proteger da destruição.

W: Se coubesse a si decidir, qual seria a principal medida que tomaria este ano para tentar travar a extinção das espécies?

Jorge Palmeirim: Tomaria as medidas necessárias para implementar uma gestão adequada das áreas protegidas, incluindo os sítios da Natura 2000. Todas as áreas protegidas necessitam de alguma forma de gestão, mas quando incluem uma presença humana importante, como é o caso das áreas protegidas portuguesas, essa necessidade é particularmente elevada. Nestas áreas, para proteger os ecossistemas e espécies que deles fazem parte, é essencial fazer uma gestão proactiva, que compatibilize a proteção com a utilização pelo Homem. Essa gestão é atualmente muito limitada, mesmo na Rede Nacional de Áreas Protegidas, principalmente em resultado da redução dos recursos humanos e financeiros do Instituto de Conservação da Natureza ao longo das duas últimas décadas. Apesar disso, conseguiram-se resultados de conservação relevantes, mas que ficam muito aquém do necessário. No caso das áreas da Rede Natura 2000 a situação é ainda mais grave; por estranho que pareça a maior parte nem planos de gestão tem, razão pela qual Portugal foi já condenado pelo Tribunal Europeu. Décadas após a sua criação, a Rede Natura 2000 continua num inaceitável limbo de gestão, principalmente porque nenhuma instituição a quer assumir…

W: Qual, ou quais, os projectos na área da Biodiversidade em que estará a trabalhar em 2021 que mais o entusiasmam?

Jorge Palmeirim: Na Liga para a Protecção da Natureza (LPN) temos vários projetos em andamento, ou em processo de candidatura, que acho particularmente entusiasmantes. A proteção das aves estepárias e dos seus habitats é um projeto da LPN que me é particularmente querido por ter sido quando dirigia a associação nos anos 90 que começou a ser implementado no terreno e foram compradas as nossas propriedades nas estepes cerealíferas de Castro Verde. Ao longo de quase três décadas de bom trabalho da LPN o projeto contribuiu grandemente para a recuperação e manutenção das aves estepárias, inicialmente muito ameaçadas. Infelizmente algumas estão de novo a declinar, pelo que a ação da LPN é agora particularmente importante. 

Também no Alentejo, a LPN planeia continuar a trabalhar na conservação de grandes aves de rapina, que estão entre as espécies mais ameaçadas da nossa fauna. A qualificação das regiões florestais do centro do país, atualmente péssimas e constantemente percorridas por grandes incêndios, é o objetivo final de um projeto de demonstração que esperamos conseguir pôr em movimento. Também estamos muito motivados pelos projetos que esperamos promover para estimular o envolvimento da sociedade em geral, e dos jovens em particular, na ação climática e na recolha de dados ambientais.

Na Faculdade de Ciências (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) tenho o prazer de coordenar um excelente grupo de jovens investigadores que trabalham em projetos de ecologia da conservação. Em São Tomé e Príncipe, um país de enorme importância para a conservação da biodiversidade, estamos a estudar a influência das alterações da paisagem em aves, morcegos e moluscos, e colaboramos ativamente com ONG e autoridades locais no planeamento da gestão de áreas protegidas. É um privilégio poder contribuir para a conservação de valores naturais tão elevados. Vamos também iniciar com um projeto na Guiné-Bissau, a minha terra, que tem como objetivo avaliar e fomentar o papel das aves e morcegos no controle natural de pragas do arroz, base de alimentação do país, cujos resultados poderão vir a ser relevantes para muitas regiões de África. Finalmente, estamos a contribuir para o desenvolvimento de técnicas de monitorização da biodiversidade utilizando métodos acústicos, uma ferramenta que está a assumir uma grande importância a nível global.


Recorde as respostas de:

Helena Freitas

Ângela Morgado

Ricardo Rocha

Miguel Dantas da Gama

Paula Nunes da Silva

Miguel B. Araújo

Patrícia Garcia-Pereira

Domingos Leitão

Humberto Rosa

Francisco Ferreira

Emanuel Gonçalves


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Marco Nunes Correia é ilustrador científico, especializado no desenho de aves. Tem em mãos dois guias de aves selvagens e é professor de desenho e ilustração.

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