Foto: David Carrera/Biodiversity4All
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O que procurar no Outono: as pereiras-bravas

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Carine Azevedo apresenta-nos duas curiosas plantas nativas, pertencentes ao mesmo género e que partilham o mesmo nome comum, cujos frutos por estes dias alimentam as aves e outros animais.

O outono chegou e com ele chegaram também as castanhas, as uvas, as abóboras, as tangerinas, os marmelos, as peras e as maçãs.

Os dias ficam mais curtos do que as noites, as temperaturas começam a descer, os ventos também aumentam e há uma maior probabilidade de ocorrência de nevoeiros. Em anos normais também é natural que ocorram períodos mais prolongados de chuva.

As folhas de algumas árvores começam a mudar de cor, passando para tons de amarelo, vermelho ou castanho, acabando por cair sobre o solo, deixando os ramos despidos. 

A transformação e a queda das folhas é a característica mais marcante da estação e trata-se de uma estratégia das plantas para se protegerem do frio do inverno. Com esta estratégia as plantas reduzem ao máximo o seu gasto de energia, entrando num período de repouso vegetativo.

Mas nem todas as plantas perdem as suas folhas no outono. A queda das folhas só ocorre em algumas plantas – caducifólias. As plantas perenifólias conservam as folhas ao longo de todo o ano. Nestas plantas o processo de renovação das folhas é quase imperceptível. Estas plantas crescem o ano inteiro, embora o seu crescimento seja mais lento na estação mais desfavorável.

Além disso, é nesta estação que muitas plantas amadurecem os seus frutos, resultado dos meses de primavera e de verão, altura em que floriram e os formaram. O Outono é por isso também conhecido como a estação de produção de muitos frutos, fundamentais para a vida selvagem, mas também ao ser humano.

A pereira-brava (Pyrus cordata) é uma das árvores cujos pequenos frutos amadurecem no final do verão e no outono. Venham conhecer melhor esta interessante espécie nativa.

Rosaceae

A pereira-brava é uma espécie da família Rosaceae, que inclui cerca de 6000 espécies distribuídas por 144 géneros botânicos. 

A família Rosaceae inclui muitas espécies conhecidas e com elevado valor económico pelo seu interesse alimentar, ornamental e também na produção de madeira. A macieira (Malus domestica), o pessegueiro (Prunus persica), a nespereira (Eryobotria japonica) e o morangueiro (Fragaria x ananassa) são algumas das espécies desta família com interesse alimentar. Já com interesse ornamental, destacam-se as roseiras (Rosa spp.) os cotoneasteres (Cotoneaster spp.), as piracantas (Pyracantha spp.) e, na produção de madeira, a cerejeira-brava (Prunus avium).

Pilriteiro. Foto: Jean-Pol GRANDMONT/Wiki Commons

Os membros desta família distribuem-se um pouco por todo o mundo, mas a sua maior diversidade ocorre no Hemisfério Norte. Em Portugal, ocorrem cerca de 75 espécies, distribuídas por 19 géneros botânicos. 

Algumas das espécies mais conhecidas são a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a cerejeira-brava (Prunus avium) e o azereiro (Prunus lusitanica), mas também podemos encontrar outras espécies como o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), a grinalda (Spiraea hypericifolia subsp. obovata), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a macieira-brava (Malus sylvestris), a pereira-brava (Pyrus spp.), a tramazeira (Sorbus aucuparia), o morangueiro (Fragaria vesca) e tantas outras.

Tramazeira. Foto: Eeno11 / Wiki Commons

O buxo-da-rocha (Chamaemeles coriacea) e a Marcetella maderensis são espécies endémicas do Arquipélago da Madeira, ou seja, exclusivas da região, não existindo em mais nenhuma parte do mundo.

Pereira-brava

A pereira-brava é também conhecida vulgarmente como espinheiro, escalheiro, escambrão, escalheiro-manso, escambroeiro ou periqueiro.

É uma árvore caducifólia, por vezes arbustiva, que pode crescer até quinze metros de altura. Forma copas irregulares, mais ou menos piramidais, com ramos ereto-patentes, glabros, espinhosos e avermelhados. Os ramos são abundantes em lenticelas. 

As folhas são orbiculares a ovadas, mais ou menos acuminadas a cuspidadas no ápice, truncadas a cordadas na base. São densamente tomentosas na fase inicial de formação, tornando-se depois glabras, e possuem margem serrilhada a crenada e pecíolo fino.

Foto: Valentin Hamon/Biodiversity4All

A floração ocorre de março a junho. As flores são hermafroditas (femininas e masculinas), surgem em inflorescências cimeiras corimbiformes, e são polinizadas por insetos. As inflorescências ocorrem na extremidade dos raminhos. Os raminhos são densamente peludos e tornam-se glabros na frutificação. 

As flores florescem em simultâneo com o abrolhamento das primeiras folhas. Possuem simetria radial, corola branca com cerca de dois centímetros de diâmetro e sépalas verdes, muito peludas.

Foto: José Luis Romero Rego/Biodiversity4All

Já os frutos amadurecem no final do verão e no outono. O fruto é um pomo pequeno, característico de algumas espécies desta família (ex. maçã, pera, marmelo, etc.). É vulgarmente conhecido como perico, daí o seu nome vulgar periqueiro.

O pomo da pereira-brava é um fruto carnudo, de forma globosa a obovóide, muitas vezes piriforme, de casca lisa, avermelhada, amarelada ou acastanhada e brilhante, com cálice caduco, raramente persistente. Os pedúnculos são flexíveis e finos. 

Foto: Felipe Castilla Lattke/Biodiversity4All

Por sua vez, as sementes são negras, ovadas, compridas e lisas.

A designação científica desta espécie deve-se às características morfológicas das suas folhas e dos seus frutos. O nome do género Pyrus é o nome clássico para a pera, deriva do termo grego Pyrós que significa “fogo” devido à forma cónica dos frutos. Por sua vez, o epíteto específico cordata procede do latim cordatus = cordado, que significa em forma de coração, alusivo à forma das suas folhas.

Origem e habitat

A pereira-brava é uma planta nativa de biomas temperados, predominantemente da região oeste do Mediterrâneo, em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Marrocos e Argélia.

Em Portugal Continental ocorre nas regiões do Norte e Centro, sendo frequente na orla e clareira de florestas caducifólias, matagais abertos, sebes, terrenos incultos e em baldios.

A pereira-brava cresce preferencialmente em locais ensolarados e não é muito exigente a nível edáfico, embora se desenvolva melhor em solos frescos e discretamente férteis. É uma espécie tolerante à poluição atmosférica, resistente à seca, a temperaturas baixas, até -7ºC, e a níveis de humidade extrema, embora não resista a solos alagados.

Foto: Paulo Alves/Biodiversity4All

É comum encontrar-se esta planta em associação com outras espécies nativas, como por exemplo: a urze-branca (Erica arborea), o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), o azevinho (Ilex aquifolium), o pilriteiro (Crataegus monogyna), o loureiro (Laurus nobilis), o medronheiro (Arbutus unedo), o sobreiro (Quercus suber), entre outras.

Papel ecológico importante

A pereira-brava é uma espécie selvagem aparentada da pereira-doméstica, desempenhando um papel importante na alimentação de muitos seres vivos e como habitat de nidificação de diversas espécies de aves.

Os melros (Turdus merula) e os tordos (Turdus philomelos) são algumas das espécies que se alimentam dos seus frutos e usam estas pequenas árvores para aí fazerem os seus ninhos. As lagartas de algumas borboletas abrigam-se e alimentam-se da sua folhagem.

Os seus frutos possuem um sabor agridoce e, embora pequenos, são usados na alimentação quando bem maduros, frescos ou cozinhados. Também é comum a sua utilização no fabrico de bebidas alcoólicas.

Esta planta é cultivada como ornamental, embora seja pouco comum em jardins e outros espaços verdes nacionais. A madeira, resistente, fácil de trabalhar e de polir, é ideal para utilização em marcenaria.

A pereira-brava é usada como porta-enxerto de outras espécies de pereira, para obter híbridos mais produtivos e mais resistentes.

Pyrus bourgaeana – a outra pereira-brava nativa

Foto: Arsenio Gonzalez Navarro/Biobiversity4All

Além da espécie Pyrus cordata, em Portugal ocorre uma outra espécie do género Pyrus, partilhando ambas o mesmo nome comum. A Pyrus bourgaeana é vulgarmente conhecida como pereira-brava, carapeteiro, catapereiro, cachipirro, saramenheiro ou seraminheiro. Morfologicamente, esta espécie é muito semelhante ao Pyrus cordata. 

A Pyrus bourgaeana tem geralmente um porte arbustivo, embora possa atingir até dez metros de altura e formar pequenas árvores. A copa é ampla, irregular e espinhosa. Os ramos são ereto-patentes e revestidos por abundantes lenticelas.

As folhas são caducas, ovadas a cordiformes, mais ou menos acuminadas, de base truncada ou cuneada, possuem margem crenada e um pecíolo longo. São muito peludas quando começam a desenvolver-se, tornando-se glabras e coriáceas com o tempo. A página-superior das folhas é verde e brilhante e no outono assume um tom avermelhado antes de cair.

A floração ocorre um pouco mais cedo, de fevereiro a abril. As flores são brancas e numerosas e surgem em inflorescências corimbiformes, na extremidade dos ramos. São formadas por cinco pétalas brancas ou rosadas e por numerosos estames com anteras avermelhadas.

Foto: jaimebraschi/Biodiversity4All

Os pedúnculos frutíferos são grossos e rígidos, enquanto na Pyrus cordata são finos e flexíveis.

Já o fruto é um pomo em forma de pêra, esverdeado a amarelado, ligeiramente maior que o da Pyrus cordata. O cálice do fruto é persistente; já na Pyrus cordata, é caduco.

 As sementes são negras, mais ou menos ovadas, compridas e lisas.

Esta espécie é mais comum na região Sul de Portugal Continental, embora também ocorra no Interior Norte e Centro, em orlas e clareiras de bosques perenifólios, matagais abertos, montados, terrenos incultos, baldios e, por vezes, perto de linhas de água temporárias.

Os frutos alimentam diversas aves e mamíferos durante o outono, embora o seu consumo humano não seja convidativo, já que têm uma polpa dura, áspera e um sabor amargo.

Foto: Duarte Frade/Biodiversity4All

A sua madeira e a sua capacidade de enxertia com outras pereiras e macieiras são muito apreciadas.

Aproveite os dias de outono para explorar a natureza e procurar qualquer uma destas espécies que ainda poderá encontrar com os pequenos frutos. 

Tente identificar a espécie, fotografe e partilhe as suas fotografias nas redes sociais, com #oqueprocurar #plantasdeportugal #floranativa e  #àdescobertadasplantasnativas.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Caducifólia – espécie cuja folha cai espontaneamente na estação do ano mais desfavorável.

Perinifólia – planta que tem um ciclo de vida longo e que viver três ou mais anos e/ou que mantém as folhas verdes ao longo de todo o ano, fazendo a sua renovação gradual sem que fique despida. 

Patente – que se insere segundo um ângulo próximo de 90º

Glabro – sem pêlos.

Lenticela ou Lentícula – saliência, circular, oval ou alongada, no tecido suberoso do caule que permite trocas gasosas entre o interior e o exterior da planta e que se formam geralmente associadas a estomas.

Orbicular – com formato ou contorno circular ou quase.

Acuminada – folha cuja ponta é geralmente aguda e mais estreita que a restante parte e com os lados ligeiramente côncavos.

Cuspidada – com ápice agudo e rígido, não muito longo.

Truncada – que termina por uma linha ou plano perpendicular ao comprimento ou à altura.

Cordada – base com dois lobos arredondados e subiguais separados por uma reentrância mais ou menos profunda e estreita.

Serrilhada – a margem da folha é serrada, com dentes muito pequenos.

Crenada – a margem da folha possui recortes arredondados.

Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.

Limbo – parte larga de uma folha normal.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).

Inflorescência – forma como as flores estão agrupadas numa planta.

Cimeira – inflorescência com crescimento limitado, terminando numa flor, assim como os seus ramos laterais.

Corimbiforme – inflorescência com crescimento limitado, em que as flores se situam mais ou menos ao mesmo nível devido ao comprimento gradualmente inferior dos pedicelos ao longo do eixo.

Corola – conjunto das pétalas (peça floral, geralmente colorida ou branca), que protegem os órgãos reprodutores da planta.

Sépala – peça floral, geralmente verde, que forma o cálice e que protege externamente a flor.

Pomo – fruto carnudo e indeiscente, de forma esférica.

Carnudo – fruto Suculento mas firme.

Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.

Piriforme – em forma de pera.

Pedúnculo – “Pé” que sustenta o fruto.

Cordiforme – com forma de coração.

Cuneada – base em forma de cunha (base estreita e aguda).

Coriácea – que tem uma textura semelhante à casca da castanha ou do couro.

Estame – órgão reprodutor masculino da flor, onde se produz o pólen, formado geralmente por filete e antera.

Antera – porção terminal do estame onde são produzidos os grãos de pólen.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.