Poça-de-maré, Praia das Avencas. Foto: Wilder (arquivo)

Cinco coisas que os animais marinhos estão a fazer e que pode ver na praia

Torne-se um perito

A zona entre-marés concentra uma surpreendente variedade de espécies. Saiba o que pode ver sem se afastar muito da sua toalha e aproveitar ao máximo uma visita à “casa” dos cabozes, anémonas, caranguejos e estrelas-do-mar.

Um “berçário” cheio de milhares de peixes:

Nesta altura do ano, a zona entre-marés – a que fica exposta durante a maré baixa e submersa com a maré cheia – enche-se com milhares de jovens peixes. Estes nasceram no mar mais profundo mas procuram a zona mais perto da costa em busca de segurança e alimento em abundância. Quando estiverem crescidos, partem de volta a águas mais distantes da costa.

“Estamos numa altura de crescimento de juvenis para muitas espécies”, explica à Wilder Frederico Almada, investigador do MARE-ISPA (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente). Por isso, as zonas entre-marés recebem uma grande quantidade de organismos. A densidade pode ser surpreendente. 

Para quem está na praia, o investigador sugere colocar óculos de mergulho e “espreitar para o que existe debaixo de água”. “Há muitos peixinhos que conseguimos ver bem perto de nós”. Alguns são juvenis, como o sargo e o robalo; outros já são adultos que não atingem mais do que os três ou quatro centímetros, como alguns cabozes.

“Também perto dos nossos pés pode haver solhas e linguados juvenis, mas são extremamente difíceis de ver. São muito bons a camuflar-se e enterram-se quase todos na areia.”

As “castanholas” do caboz:

Para o pequeno caboz-de-crista (Coryphoblennius  galerita), ainda há trabalho a fazer. De Março a Setembro, este peixe aproveita os pequenos buracos e reentrâncias nas rochas da zona entre-marés para guardar os seus ovos. “Ali estão abrigados das ondas, do sol e dos predadores como os caranguejos”, explica Frederico Almada. Quando a maré baixa e deixa a descoberto o ninho, a ameaça dos predadores aumenta. Por isso, o macho fica de guarda à entrada do ninho, podendo aguentar cerca de duas horas fora de água. “É um investimento brutal! Durante esses períodos até à eclosão dos ovos, o macho inibe-se de se alimentar e a sua condição física deteriora-se”, salienta o especialista.

Mas o esforço parece resultar. “Os caranguejos, que são maiores e parecem camiões blindados, não se metem com estes cabozes.” Isto porque os pequenos peixes “têm uma agressividade fabulosa: conseguem morder as patas dos caranguejos com os seus dentes fortes. Já ouvimos as suas dentadas: soam como castanholas!” 

Muco e ventosas, adaptações engenhosas:

No pequeno mas complexo mundo das poças de maré, as espécies foram-se adaptando às variações de temperatura, exposição ao Sol, salinidade e força das ondas. Duas das formas que algumas espécies encontraram para sobreviver são o muco e as ventosas.

Há espécies de cabozes que perderam as escamas e têm o corpo coberto com muco. “Os que têm escamas não estão tão bem adaptados ao meio porque, em zonas rochosas, podem facilmente raspar nas rochas e perder uma escama, o que representa uma ferida”, explica Frederico Almada. Os que não têm escamas “têm uma textura semelhante à das enguias, estão cobertos por uma película de muco que lhes permite deslocar-se com facilidade e que os protege dos impactos, actuando como uma zona de amortecimento. Além disso, o muco também mantém a humidade”.

Outras espécies adaptaram as suas barbatanas pélvicas, transformando-as em ventosas para se agarrar às rochas e se protegerem da força das ondas. “Nestes peixes, as barbatanas pélvicas fundiram-se numa só e transformaram-se numa espécie de ventosa. Chamam-lhe os sugadores. Isto é especialmente útil quando a maré está a encher e quando está a vazar, para conseguirem resistir à força das ondas”. 

Tapetes de algas:

Por vezes é comum encontrarmos na praia tapetes de algas. “É algo que faz parte do ciclo de vida” destas espécies, explica Frederico Almada. Algumas algas, que preferem águas frias, têm um crescimento grande no Inverno e na Primavera. Nesta altura do ano começam a morrer, soltando-se para a coluna de água. Apesar de, por vezes, aparecerem em grandes quantidades, “são perfeitamente inofensivas”.

Em muitas zonas da costa portuguesa, em especial nas zonas Centro e Sul, as algas que surgem nas águas e no areal são diferentes das que apareciam há décadas atrás. “Hoje a maioria das algas que aparece na costa de Cascais, por exemplo, é de uma espécie exótica, a Asparagopsis armata, que chegou a Portugal há 30 anos”, salienta o perito. Esta alga vermelha é nativa do Hemisfério Sul e tem os ramos modificados em espinhos.

Os desafios da maré baixa e os perigos da maré cheia: 

A vida no intertidal nada tem de monótono. Quando a maré baixa, espécies como os mexilhões e as lapas tendem a agregar-se em reentrâncias nas rochas. É uma forma de estarem menos expostos ao Sol e mais abrigados do calor. Já os burriés, quando estão prestes a ficar fora de água, recolhem-se e fecham uma espécie de tampinha que os protege da falta de água. Ainda assim têm limites ao tempo que conseguem passar fora de água.

Quando a maré sobe, o perigo é de uma natureza bem diferente. Quando o mar chega e cobre as rochas, chegam também peixes maiores que predam os organismos mais pequenos. A zona entre-marés é um excelente local de alimentação para inúmeras espécies, com alimento em abundância.