Abelhão-comum (Bombus terrestris). Foto: Alvesgaspar/Wiki Commons

Alterações climáticas: Cientistas alertam que é preciso agir rapidamente para proteger os insectos (e a espécie humana)

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Numa revisão científica publicada agora, na mesma semana em que decorre a Cimeira do Clima COP27, uma equipa com 70 cientistas, de 19 países, avisa que não há tempo a perder e é preciso agir rapidamente.

Se não forem dados passos para proteger os insectos face às consequências das alterações climáticas, isso irá “reduzir drasticamente a nossa capacidade de construirmos um futuro sustentável baseado em ecossistemas saudáveis e funcionais”, alerta este novo artigo, que analisou os resultados de pesquisas realizadas por todo o mundo.

Os autores do trabalho, publicado na Ecological Monographs, lembram que o aquecimento global e os eventos climáticos extremos já estão a pressionar algumas espécies de insectos rumo à extinção. E se nada for feito, as coisas só vão piorar. “Alguns insectos vão ser forçados a mudar para climas mais frios para sobreviverem, enquanto outros vão enfrentar impactos na sua fertilidade, ciclo de vida e nas interacções com outras espécies”, explica uma informação sobre a revisão agora publicada, divulgada pela Universidade de Maryland.

O problema é que essas “disrupções drásticas dos ecossistemas” podem reflectir-se nas pessoas, afirma Anahí Espíndola, um dos co-autores do artigo e ligado àquela universidade americana. “Precisamos de perceber, como humanos, que somos uma espécie entre milhões de espécies, e que não há razão para assumirmos que nunca nos vamos extinguir. Estas mudanças nos insectos podem afectar a nossa espécie de formas muito drásticas.”

Ondas de calor? Insectos estéreis

Entre os vários efeitos das alterações climáticas incluídos no âmbito desta revisão, está por exemplo o declínio de várias espécies de abelhões na América do Norte. “Os insectos de sangue frio estão entre os grupos de organismos mais afectados pelas alterações climáticas, porque a sua temperatura corporal e metabolismo estão fortemente ligados à temperatura do ar circundante”, explica Jeffrey Harvey, que liderou esta revisão.

Rainha de abelhão-comum (Bombus terrestris). Foto: Ivar Leidus/Wiki Commons

“A mudança gradual na temperatura global à superfície impacta os insectos na sua fisiologia, comportamento, fenologia, distribuição e interacções com espécies”, descreve o mesmo investigador, ligado à Universidade Vrije de Amesterdão e ao Instituto de Ecologia da Holanda, citado num comunicado desta última instituição.

Outro dos exemplos avançados é o efeito das ondas de calor sobre as moscas-da-fruta, as borboletas e os besouros-da-farinha (géneros Tribolium e Tenebrio). Estas espécies conseguem sobreviver, mas ficam estéreis e incapazes de assumir uma das suas principais funções: a reprodução.

Quanto aos serviços de ecossistema que podem acabar afectados pelas alterações climáticas, a equipa avança com três exemplos. Desde logo, os insectos reciclam os nutrientes e são um alimento para outros seres que estão mais acima na cadeia alimentar, incluindo os humanos. Em segundo lugar, o grupo dos polinizadores – como as abelhas, as moscas-das-flores e as borboletas – assegura o fornecimento de uma parte importante da comida a nível mundial. Em contrapartida, só os ecossistemas saudáveis é que evitam o crescimento descontrolado de pestes e de insectos portadores de doenças.

Borboleta cauda-de-andorinha (Papilio machaon). Foto: Dino/Wiki Commons

O que podemos fazer?

“Ao longo do tempo, os insectos precisam de ajustar os seus ciclos de vida sazonais e a sua distribuição, à medida que o mundo aquece”, acrescenta Harvey. “No entanto, a sua capacidade para fazer isso é prejudicada por outras ameaças de origem humana, como a destruição de habitats e a fragmentação dos mesmos, e os pesticidas.”

A equipa acredita que ainda é possível aos insectos sobreviverem às mudanças no clima. E entre as formas de ajuda que colocam em cima da mesa, estão várias que dependem dos cidadãos comuns. Por exemplo, cuidar de uma grande diversidade de plantas silvestres, e também fornecer comida e áreas onde os insectos se consigam abrigar de eventos extremos. Outra tarefa importante: reduzir o uso de pesticidas e de químicos em geral.

“A uma escala maior, precisamos de lidar com as alterações climáticas. Os programas de ‘rewilding’ também necessitam de planear micro-ecossistemas, que se foquem na preservação de pequenos animais como os insectos”, sublinha o mesmo responsável, que conclui: “São pequenas criaturas teimosas e devemos estar aliviados por ainda haver espaço para corrigirmos os nossos erros. Mas precisamos mesmo de lançar políticas que estabilizam o clima mundial.”


Saiba mais.

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Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.