Abelha Hylaeus bifasciatus. Foto: Albano Soares

Há duas novas abelhas registadas para Portugal. E ambas são uma surpresa

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Um grupo de 10 investigadores portugueses publicou a citação científica destas abelhas, que se vêm somar aos 722 insectos do mesmo grupo já registados em território nacional.

Uma das novas abelhas, com o nome científico Hylaeus bifasciatus, “tem uma vasta área de distribuição na Europa, ocorrendo desde a França à Ucrânia e chegando ao Médio Oriente”, descreve o artigo publicado na revista científica “Arquivos Entomolóxicos” a 27 de Abril.

Mas apesar disso, a descoberta desta espécie em Junho passado causou “alguma surpresa”, explica Albano Soares, entomólogo que encontrou a abelha e é o autor principal do artigo, e que está ligado ao Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.

É que até hoje a Hylaeus bifasciatus só tinha um registo na Península Ibérica, num local “completamente distante e com características distintas” do sítio onde foi agora encontrada: em Espanha, tinha sido registada em 2008 na serra de Gredos, no centro da Península Ibérica, a uma altitude de 1.100 metros; passados 14 anos, Albano Soares detectou-a em Vila Velha de Ródão (Castelo Branco), a dois quilómetros do rio Tejo.

Abelha Hylaeus bifasciatus. Foto: Albano Soares

“Para melhor se compreender a sua distribuição na Península Ibérica, esta espécie deveria ser procurada entre as duas localizações conhecidas”, sugerem os autores do artigo, liderados pelo investigador do Tagis.

Um achado em Constância

Já a espécie Andrena praecox, que pertence a um grupo de abelhas grandes, “costuma começar a voar aos primeiros sinais de Primavera” e tem uma “vasta distribuição europeia”, mas pode ser encontrada mais facilmente nos países do centro e norte do continente.

Abelha Andrena praecox. Foto: Albano Soares

Em Espanha foi registada em quatro locais diferentes, incluindo Ávila e Madrid, “em áreas com maior influência continental” do que acontece em Constância (Santarém) – local onde Albano Soares encontrou duas fêmeas desta mesma espécie, em Fevereiro de 2020, a cerca de 2,5 quilómetros do rio Tejo.

Devido às características dos sítios onde fora detectada em Espanha, “também era uma espécie que esperaríamos encontrar no Norte, em locais mais próximos do distrito de Bragança, por exemplo”, disse este entomólogo à Wilder.

No artigo, a equipa sugere que a Andrena praecox pode estar presente no Centro e Norte de Portugal e que deverá “ser procurada nos primeiros meses do ano”. Além do Tagis, o trabalho contou com investigadores ligados ao cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), ao Instituto Superior de Agronomia e à agência Ciência Viva.

Há ainda muito para descobrir

É certo que existe um grande caminho a fazer quanto ao conhecimento sobre as abelhas de Portugal, acredita a equipa, que lembra que “o conhecimento sobre a fauna de abelhas é ainda incipiente, com poucos investigadores dedicados a este grupo, áreas naturais por registar e várias lacunas na distribuição de espécies”.

“Achamos que poderão ocorrer em Portugal um número próximo das 750 espécies”, adianta Albano Soares, que salienta que “as abelhas são um grupo cujo conhecimento tem evoluído bastante nos últimos tempos”.

“Além das novas espécies a adicionar à lista de Portugal, há também muito a fazer no que concerne à distribuição e ecologia dessas espécies, um longo caminho a percorrer que ganha cada vez mais ímpeto e entusiasmo”, acredita o entomólogo português.


Saiba mais.

Na Mata de Alvalade, em Lisboa, Albano Soares já descobriu mais de 100 espécies de abelhas. Recorde também estas espécies que pode ver nos meses de Primavera.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.