O borrelho-de-coleira-interrompida é uma das espécies com um grande declínio. Foto: Zeynel Cebeci/Wiki Commons

Relatório faz retrato “muito preocupante” das aves em Portugal, mas ainda “reversível”

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Espécies como a garça-boieira, o sisão e o borrelho-de-coleira-interrompida destacam-se com tendências preocupantes, indica o novo documento divulgado pela SPEA, que compila resultados de 23 programas de monitorização e censos realizados com a participação de voluntários.

A intensificação da agricultura e a perturbação das praias e de outras zonas costeiras em Portugal são duas das principais ameaças que estão a provocar o desaparecimento “a um ritmo alarmante” de aves dos campos, bosques, estuários e praias, avisa a SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

Esta é uma das principais conclusões do relatório “Estado das Aves em Portugal 2022”, que compila os resultados de 23 programas de monitorização e censos que têm vindo a realizar-se em território nacional. Ainda assim, apesar do retrato preocupante, os dados recolhidos demonstram também “o impacto positivo das acções de conservação da natureza”.

“Para muitas espécies, o estado das suas populações em Portugal é preocupante, mas em muitos casos ainda reversível”, afirma Domingos Leitão, director-executivo da SPEA, citado num comunicado desta organização não governamental. “Temos provas de que a conservação resulta, e ainda vamos a tempo, se houver vontade política para passar da exploração desmesurada à gestão sustentável.”

Mas para já, situações como a intensificação da agricultura estão a reflectir-se numa “situação periclitante” de espécies como o picanço-barreteiro e o sisão. Outra ave seriamente afectada é a garça-boieira ou carraceiro, que viu a sua população nidificante reduzir-se em 77% em apenas sete anos, sublinha a associação, que aponta o dedo à “exploração exaustiva dos nossos campos, com recurso a pesticidas e outros contaminantes, sistemas de regadio que secam a região circundante, e monoculturas que esgotam a biodiversidade”.

Quanto às aves que fazem ninho nas praias portuguesas, a associação avida que “poderão estar a sofrer com a perturbação das zonas costeiras, que inclui não só uma maior presença humana e de cães, mas também a limpeza mecânica” das areias do litoral.

Um exemplo é o borrelho-de-coleira-interrompida, espécie para a qual “três censos diferentes apontam para um decréscimo muito preocupante”. “Tanto o Arenaria (programa de monitorização de aves costeiras) como o Programa Nacional de Monitorização de Aves Aquáticas Invernantes detectaram reduções muito grandes no número de borrelhos-de-coleira-interrompida que passam o Inverno no nosso país, enquanto o censo dirigido especificamente a esta espécie revela que a sua população nidificante diminuiu 46% nos últimos 19 anos”, sublinha a SPEA.

Também o britango ou abutre-do-egito e a pardela-balear – a ave marinha mais ameaçada da Europa – estão em declínio.

Em contrapartida, a situação actual da gaivota-de-audouin é mais encorajadora: a colónia de nidificação desta espécie na ilha Deserta, no Algarve, tornou-se nos últimos anos na mais importante em todo o mundo, para esta gaivota. Este local é um dos vários sítios que estão, desde 2019, sob protecção do projecto LIFE Ilhas Barreira, coordenado pela SPEA.

Outra espécie cuja situação está mais positiva é o grifo, “cuja população nidificante teve um crescimento muito importante”. Segundo os dados recolhidos, publicados no relatório, há hoje cinco vezes mais grifos a nidificar em Portugal do que há 20 anos, “fruto também das muitas medidas de conservação que estiveram em curso ao longo desse período”, indica a ONG. Esta alerta todavia que “algumas ameaças continuam muito presentes, como o uso ilegal de venenos, que afeta os grifos, mas também muitas outras espécies de abutres e águias.

O relatório Estado das Aves em Portugal 2022 inclui ainda informação de novos censos dirigidos como a gaivota-de-patas-amarelas, gralha-de-nuca-cinzenta, periquito-de-colar, borrelho-de-coleira-interrompida e coruja-do-nabal, “que vêm trazer dados sobre espécies que não estavam a ser monitorizadas eficientemente nos últimos anos”.

“Os dados que permitiram aferir este Estado das Aves em Portugal foram, em grande parte, recolhidos por centenas de voluntários que dedicaram o seu tempo a observar, contar e registar aves nos diferentes censos e programas de monitorização”, salienta a associação, que recorda que só o censo de milhafres ou mantas, que decorre anualmente nos Açores e na Madeira, já teve a participação de mais de 2.300 voluntários desde 2006.

“Temos sempre presente que sem a generosidade dos voluntários, muitos destes censos não seriam possíveis,” comentou Domingos Leitão. “Os resultados mostram o poder da ciência cidadã, mas por outro lado é triste que não haja mais investimento do Estado na monitorização das espécies. Portugal tem a necessidade e a obrigação de acompanhar o estado da sua biodiversidade e de reportar esses dados à Comissão Europeia”, afirmou o mesmo responsável.

“Há muitas espécies para as quais há lacunas de informação e, e se não fossem os voluntários e o envolvimento de inúmeras organizações não-governamentais, para muitas espécies não haveria dados para reportar.”


Saiba mais.

Pode descarregar aqui o novo relatório “O Estado das Aves em Portugal 2022”.


Este relatório foi produzido com o apoio do projeto “Ciência Cidadã – envolver voluntários na monitorização das populações de aves”, promovido pela SPEA em parceria com a Wilder e o Norwegian Institute for Nature Research (NINA), financiado pelo Programa Cidadãos Ativ@s/EEAGrants, fundo gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Bissaya Barreto.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.