Paulo Catry, a meio caminho entre os Açores e a Gronelândia, fala do entusiasmo geral da expedição perante o avistamento de grandes baleias. Nesta quinta crónica, escrita a bordo do navio oceanográfico RSS Discovery, o investigador do MARE-ISPA testemunha este espectáculo da natureza. 

 

19 de Junho – Segundo dia de sol e mar calmo. Manhã muito uniforme, mar imenso, parece vazio. Pelo almoço as coisas mudam: observamos no espaço de meia hora, a intervalos de 5 minutos, 4 grandes tubarões. Cada um repousa nadando lentamente à superfície, com a legendária barbatana dorsal a aparecer acima da superfície (na verdade, ao contrário do que mostram no cinema e nos cartoons, para além da dorsal, os tubarões à superfície geralmente também mostram acima da linha d´água a parte superior da barbatana caudal). São grandes tintureiras (Prionace glauca), um tubarão frequente em águas profundas que, tal como a grande maioria dos seus congéneres, tem conhecido
um decréscimo vertiginoso devido à pesca excessiva.

 

Tintureira. Foto: Pexels/Pixabay

 

Os tubarões, ao contrário de peixes como a pescada ou a sardinha (que fazem posturas de milhares de ovos), têm uma reprodução muito lenta, dando à luz filhos vivos completamente formados e em muito pequeno número. Contam-se, portanto, entre os seres mais sensíveis aos efeitos da sobrepesca, seja quando são alvos de pescarias dirigidas, seja quando são vítimas de capturas não intencionais.

20 de Junho – Logo de manhã vemos um garajau-do-ártico (Sterna paradisea) poisado sobre uma tartaruga-comum (Caretta caretta). Os garajaus sabem nadar, mas em regra só poisam na água quente dos mares tropicais. Onde a água é mais fria, normalmente repousam em praias ou rochedos e, no alto-mar, sobre objetos flutuantes. Outrora as tartarugas devem ter sido um poiso importante, mas hoje em dia estes animais rareiam. Em contrapartida, há muito mais lixo marinho e os garajaus conseguem poisar e equilibrar-se em estruturas tão instáveis como pequenas boias do tamanho de uma bola de andebol, ou numa garrafa de plástico. Não se veja nesta descrição uma apologia da poluição dos nossos mares!

À tarde, graças às boas condições, e por estarmos a passar numa zona rica em mamíferos marinhos, há grande excitação a bordo. De todos os lados há quem veja e assinale um sopro, muitas vezes vários ao mesmo tempo. No espaço de 2-3 horas vemos cinco espécies de grandes baleias (azul, comum, sardinheira, de bossa e cachalote). Um destes animais, uma baleia-de-bossa (Megaptera novaeangliae) presenteia-nos com saltos fora de água, e depois um repetido acenar das suas imensas barbatanas peitorais brancas.

 

Baleia-de-bossa. Foto: Unsplash/Pixabay

 

22 de Junho – Nevoeiro. Nevoeiro. Quase 48 horas de nevoeiro. Praga bem conhecida dos antigos pescadores europeus que se aventuravam nos bancos da Terra Nova, o nevoeiro estende-se pelo Atlântico adentro e persiste ao longo de dias inteiros. Passamos horas a fio com visibilidades entre os 50 e os 100m. Difícil detetar muita vida nestas condições.

 

Um dos laboratórios do navio da expedição. Foto: Paulo Catry

 

E o cinzento insistente acaba por afetar um pouco o moral. Faz-se mais silêncio à mesa. E pede-se tudo menos nevoeiro, nem que seja um vendaval!

Aproveita-se para por a escrita (e o sono) em dia e para limpar e reorganizar os laboratórios e equipamentos a bordo. Nunca sobra tempo de verdadeira ociosidade.

 

Diário de bordo de Paulo Catry

Leia aqui as crónicas de Paulo Catry, investigador português que está a a bordo do navio RSS Discovery no Atlântico Norte. Conheça aqui mais sobre esta expedição científica internacional.