Fotos: Kendrew Colhoun

O que estão as alterações climáticas a fazer aos gansos-de-faces-pretas?

Ciência

As aves migradoras de longa distância são excelentes para nos ajudar a compreender melhor como o mundo natural responde às alterações climáticas. Um novo estudo numa colónia de gansos-de-faces-pretas diz que a resposta não é preto-no-branco.

 

O ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla hrota) é assim como uma raridade em Portugal. Por vezes, há observações pontuais, como a que o ornitólogo Nuno Barros descreveu na Wilder em Novembro de 2015.

 

 

Esta ave de cor escura, com a parte traseira branca e voo elegante, ajudou uma equipa de investigadores da Universidade de Exeter, na Cornualha, a compreender que as alterações climáticas afectam as espécies de forma complexa.

Os investigadores estudaram uma colónia de gansos em particular. Estes passam os Invernos na Irlanda – muitos deles em Dublin – e depois visitam a Islândia em Maio, antes de partirem para as zonas de reprodução no Árctico canadiano em Junho. Fazem a viagem de regresso em Agosto.

Num artigo publicado recentemente revista Journal of Animal Ecology, os investigadores descobriram que as alterações climáticas têm efeitos mistos nesta ave. Se, por um lado, melhoram as possibilidades de reprodução do ganso-de-faces-pretas no Árctico, por outro aumentam os perigos para as mães ganso.

Temperaturas mais quentes nos locais de reprodução no Nordeste do Canadá ajudam este ganso a produzir mais crias, que cuida nos seus ninhos feitos no solo. As fêmeas reproduzem-se com mais sucesso.

Mas se isso pode até ser uma coisa boa, tem o reverso da medalha, ou seja, aumentar a taxa de mortalidade das mães.

Os investigadores acreditam que isto acontece porque as mães usam mais energia para pôr ovos e enfrentam maiores riscos de predadores quando estão a chocar os ovos nos seus ninhos.

“Elas fazem ninho no solo e tendem a permanecer sempre ali, dependendo da camuflagem quando os predadores se aproximam. Por isso, melhores condições de reprodução significam que mais mães ficam nos ninhos e, assim, mais em perigo”, explicou um dos autores do estudo, Stuart Bearhop, da Universidade de Exeter.

 

 

Apesar de o período de incubação não mudar, anos mais frios significam que as mães abandonam os ninhos depois de a primeira incubação ter falhado, ou nem sequer se reproduzem.

“Além disso, a reprodução também consome muita energia e atrasar a partida do Árctico, para esperar que as suas crias estejam prontas para voar, poderá tornar a viagem para Sul mais perigosa”, acrescentou.

A resposta destas aves às mudanças do clima é, assim, um misto de efeitos positivos e negativos. “Tendemos a pensar que as alterações climáticas só têm um tipo de efeito, mas aqui temos uma população a ser afectada de formas opostas”, comentou Ian Cleasby, do Centro para a Ecologia e Conservação da Universidade de Exeter, na Cornualha.

“Esta população é sensível às alterações na sobrevivência dos adultos, por isso o aumento na reprodução pode não ser suficiente para compensar a perda de mais fêmeas adultas.”

Na opinião de Ian Cleasby, “investigações como esta são importantes porque temos de compreender de que forma as populações de animais vão responder às alterações climáticas se quisermos tomar decisões sobre como conservar a biodiversidade”.