Graças ao recurso a ferramentas moleculares, cientistas portugueses e espanhóis identificaram espécies que antes teriam passado despercebidas, por serem muito semelhantes a outras já conhecidas.

Tanto o tritão-de-ventre-laranja-meridional (Lissotriton maltzani) como o sapo-parteiro-mediterrânico (Alytes almogavarii) nasceram agora para a ciência, identificados por duas equipas de cientistas.

“As duas são espécies ‘crípticas’, cujo aspecto externo é muito semelhante ao de outras com as quais estão aparentadas”, indica em comunicado o Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN), de Madrid, que tem investigadores envolvidos nas duas equipas. “As análise moleculares mostraram a existência de importantes diferenças genéticas que confirmam o seu reconhecimento como espécies diferentes.”

Tritão-de-ventre-laranja-meridional (à esq.) e sapo-parteiro-mediterrânico. Foto: D.R.

Uma das novas espécies, o tritão-de-ventre-laranja-meridional, foi encontrada no Sul de Portugal e Espanha. Foi agora descrita num artigo científico publicado no Journal of Evolutionary Biology, num trabalho liderado por cientistas do CIBIO-InBIO, laboratório de investigação ligado à Universidade do Porto.

Já o novo sapo-parteiro-mediterrânico ocorre na Catalunha, em Espanha. O artigo científico que descreve a espécie foi publicado na revista Amphibia-Reptilia.

“A Península Ibérica é uma das áreas com maior diversidade de espécies de anfíbios em toda a Europa, devido à sua complexa história geológica e pela grande história evolutiva dos anfíbios da região, bem ilustrada por um importante registo fóssil”, explicou o investigador do MNCN, Iñigo Martínez Solano, em comunicado.

“A diversidade topográfica e climática da Península foi o motor de numerosos processos de isolamento de diferentes espécies animais e vegetais, cuja evolução independente deu lugar à formação de espécies endémicas”, acrescentou.

Por esse motivo, há hoje registo de mais de uma dezena de anfíbios que só podem encontrar-se na Península Ibérica, como a salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica), o tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai), o sapo-parteiro-bético (Alytes dickhilleni) e a rã-pirenaica (Rana pyrenaica).

Mas como a morfologia dos anfíbios – ou seja, as características físicas – altera-se muito lentamente, acontece por vezes que espécies independentes têm diferenças genéticas, mas continuam muito semelhantes. E por esse motivo, “a aplicação de marcadores moleculares ao estudo da sua história evolutiva revelou a existência de espécies que tinham passado despercebidas anteriormente.”

Como foram detectadas?

O que os cientistas fizeram, nas duas situações, foi analisar em laboratório os dados genómicos de grupos diferenciados que aparentemente pertenciam à mesma espécie, por terem aparência muito semelhante, mas que apresentavam uma área de hibridização com poucos quilómetros de largura. Ou seja, esses grupos não se reproduzem entre si, ou quando o fazem os descendentes são inférteis.

Os estudos moleculares mostraram que existem zonas híbridas estreitas entre as duas novas espécies e outras aparentadas. “Mas tanto no caso do tritão-de-ventre-laranja-meridional como no do sapo-parteiro-mediterrânico, as diferenças genéticas são importantes e mostram que existem barreiras à hibridização (reprodução entre espécies), o que apoia o seu reconhecimento como espécies independentes”, indicou também o MNCN.

Mas há algo que deixou ambas as equipas preocupadas. Os novos anfíbios têm áreas de distribuição fragmentadas e pequenas e estão ameaçados pelos mesmos problemas das espécies mais próximas: destruição de habitats; introdução de predadores, como peixes e caranguejos, nos charcos onde se reproduzem; aparição de doenças como a quitridiomicose e o ranavírus.

“Agora que sabemos que estão aqui, é importante ter as duas espécies em conta nas futuras actualizações de catálogos de espécies ameaçadas e adoptar medidas para melhorar o estado de conservação das suas populações”, alertou Martínez Solano.


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