Foto: D.R.

Uma víbora mordeu Andreia, mas sobreviveu e foi devolvida à natureza

Andreia Rodrigues Dias foi mordida por uma víbora-cornuda juvenil, em meados de Abril, e contou à Wilder como tudo aconteceu.

Não são comuns as mordeduras de répteis venenosos em Portugal, onde há apenas registo de duas espécies: víbora-cornuda e víbora-de-seoane. Mas por vezes acontecem, como sucedeu em Constância no mês passado com um homem mordido por uma víbora-cornuda, internado nos cuidados intensivos por 72 horas.

As mordeduras de víbora-cornuda não costumam ser letais, apesar de dolorosas, mas podem desencadear reacções alérgicas graves. E o mais comum é que os répteis, se forem apanhados – como sucedeu em Constância – enfrentem uma morte certa. Isto, apesar de ser proibido por lei.

Também Andreia Rodrigues Dias, 36 anos, foi mordida por uma víbora-cornuda há poucas semanas, mas o desfecho foi diferente e teve um raro final para a cobra. Tudo aconteceu a 17 de Abril na aldeia de Cabanes, em Vila Pouca de Aguiar, pelas 20h00. Quando estava a chegar em casa, deparou com uma pequena cobra ali na entrada da garagem, contou à Wilder.

“Ao ver a cobra na garagem pensei que fosse um juvenil de cobra-rateira, as que andam nos quintais ou perto das casas. Não sei identificar as espécies olhando para elas, seja pela cor ou pela cabeça.”

A víbora-cornuda que mordeu Andreia, já dentro de um frasco de vidro. Foto: D.R.

Apesar de saber da existência da víbora-cornuda como sendo uma espécie venenosa, Andreia costumava associá-la a zonas de montanha. Ainda mais porque no local onde mora, na Mealhada – só tinha ido a Cabanes passar o fim-de-semana – estes répteis não costumam aparecer.

Quando deparou com aquela pequena cobra, “o instinto foi retirá-la dali com segurança antes que ela entrasse na casa e fosse mais complicado capturar”, descreveu. “Foi usado um copo de plástico para a recolher e uma folha de papel para a empurrar delicadamente para o copo.” O problema foi que, ao sentir algo a tocar-lhe, a cobra “sentiu-se ameaçada” e mordeu o polegar com que Andreia segurava a folha.

Assim que se sentiu mordida, e percebeu o que tinha acontecido, Andreia apertou o polegar para extrair o veneno, lavou o dedo e passou álcool. O cunhado usou uma pequena vassoura para empurrar o réptil para dentro de um frasco de vidro, onde ficou guardado. Devido às dores no dedo, que estava a inchar rapidamente, foram pesquisar na Internet e confirmaram que se tratava de uma víbora-cornuda.

Andreia foi de imediato para o Hospital de Vila Real, onde lhe administraram um antídoto para o veneno e outros medicamentos que lhe aliviaram a dor e o inchaço em menos de 24 horas. Ficou internada em observação até ao início da tarde seguinte, quando regressou a casa e foi melhorando do inchaço. Mas passado algum tempo surgiu-lhe uma infecção na zona da mordedura, da qual está ainda a recuperar com ajuda de antibiótico, anti-histamínico e anti-inflamatório. “Ao fim de oito dias da mordedura, com a reinfecção, fiquei com bolhas e o dedo bastante inchado com  um edema negro”, explicou.

Quanto à víbora-cornuda, no dia seguinte foi devolvida à natureza entre a barragem do Alvão e a aldeia de Cabanes, num local afastado de habitações. “A minha irmã trabalha no Centro de Interpretação Ambiental da Mealhada e tem conhecimento que se trata de uma espécie venenosa protegida em Portugal”, justificou Andreia.

Vulnerável à extinção

Em Portugal, de acordo com o Atlas dos Anfíbios e Répteis (2008), a víbora-cornuda (Vipera latastei) “encontra-se em todo o território constituindo populações dispersas e fragmentadas, de uma forma geral restritas às zonas montanhosas”.

Esta víbora atinge no máximo 70 cm de comprimento. A cabeça tem uma forma triangular, diferente do resto do corpo, e o focinho proeminente faz justiça ao nome “víbora-cornuda”. 

Víbora-cornuda. Foto: Elguerreroalex / Wiki Commons

Trata-se de uma espécie ameaçada em território nacional – tal como a nível global – pois está classificada como Vulnerável à extinção. As principais ameaças passam pela perda de habitat, pelos atropelamentos em estradas e pela perseguição directa – que acontece por aversão ou para ser vendida a coleccionadores, ou ainda para o fabrico de amuletos.

Em 13 anos, 1.649 casos em Espanha

Em Espanha, uma equipa de cientistas analisou os registos de alta hospitalar entre 1997 e 2009, em busca de casos de mordeduras venenosas ao longo desse período. Concluíram que houve 1.649 admissões hospitalares com esse diagnóstico, num artigo científico publicado em 2012.

Em causa estão mordeduras de três espécies de víboras que ocorrem em Espanha. Além da víbora-cornuda e da víbora-de-seoane, encontradas em Portugal, numa parte do País Basco e da Catalunha ocorre também a víbora-áspide.

Quanto às idades em que mais casos destes acontecem, uma em cada quatro mordeduras de víbora atingiram crianças e jovens dos 5 aos 14 anos, com 412 casos no total. Seguiram-se os maiores de 65 anos, com 316 situações. Em termos gerais, o sexo masculino é o que mais surge representado, pois mais de dois terços (67%) das vítimas são homens.

Entre os mais de 100 casos por ano de mordeduras com veneno, praticamente todas tiveram um bom desfecho. Mas quase 1% – em média uma por ano – terminou com a morte da vítima.


Saiba mais.

A víbora-cornuda já foi identificada duas vezes no consultório Que Espécie é Esta. Aprenda mais sobre este réptil aqui e aqui.