Experimente, aprenda e divirta-se a fotografar paisagens com estas dicas do biólogo e fotógrafo de natureza Daniel Santos. Mesmo a tempo de aproveitar os passeios de Primavera.

 

Vivemos numa época em que a destruição da natureza é um acontecimento recorrente e desprovido de remorso. Destruímos sistemas dunares para construir hotéis, devastamos florestas para construir estradas e colocamos um ponto final na dinâmica de ecossistemas frágeis, como os rios, quando erguemos barragens.

Uma das principais razões que me motiva a fotografar a natureza é a possibilidade de mostrar a beleza do mundo natural e ao mesmo tempo incentivar as pessoas para a conservação da biodiversidade. A fotografia de paisagem é muito importante neste processo, pois uma boa imagem permite eternizar um local/habitat que, a qualquer momento, pode desaparecer e sensibiliza as pessoas para a sua beleza e, por isso, para a necessidade de o proteger.

Aqui ficam as bases que precisa de saber para começar a tirar excelente fotografias de paisagens. A fotografia de paisagem envolve quatro elementos importantes: equipamento fotográfico, luz, composição e técnica fotográfica.

 

 

Equipamento fotográfico:

Eu não gosto muito de falar sobre equipamento, porque muitas vezes é dada demasiada importância. O conhecimento e experiência será sempre mais valioso do que qualquer câmara ou objetiva. No entanto, a escolha do equipamento que usamos para fotografar um momento específico pode fazer a diferença entre uma imagem razoável e uma boa imagem.

 

  • Tripé e comando de disparo: o tripé é um acessório indispensável na fotografia de paisagem. Este estabiliza a câmara e reduz as vibrações, o que é essencial quando usamos velocidades de obturador baixas. Um comando de disparo permite tirar fotografias sem tocar na câmara, sendo também importante na minimização de vibrações. Caso não tenha um, pode sempre ativar o temporizador da sua câmara.

 

  • Câmara: na realidade hoje em dia até com um telemóvel é possível tirar boas fotografias. Claro que uma câmara profissional tem maior qualidade, mas uma de gama baixa já produz excelentes resultados. Lembre-se, a melhor câmara é sempre aquela que possui!

 

  • Objetivas: são mais importantes do que a câmara, pois têm maior interferência na qualidade de imagem. É preferível ter objetivas de boa qualidade e uma câmara mais barata, do que uma câmara topo de gama e objetivas fracas. Então, quais são as objetivas mais indicadas para a fotografia de paisagem? Eu diria que o ideal seria ter diferentes objetivas, que em conjunto cobrissem as distâncias focais desde os 16mm até aos 200mm.

 

  • Filtros: há três tipos de filtros que podem ser bastante úteis: filtro polarizador, filtros de densidade neutra graduados e filtros de densidade neutra.

 

Luz:

Para conseguir boas fotografias de paisagem vai precisar de boa luz. Na minha opinião, o tipo de luz mais adequada a cada paisagem pode variar. É importante ler o local e tentar perceber qual a melhor altura do dia para fotografar ou até mesmo quais as melhores condições climatéricas. Diria que grande parte das paisagens funcionam bem com a luz do nascer ou pôr-do-sol, sendo este um bom ponto de partida. A luz nestas alturas do dia produz sombras suaves e cores vibrantes, que dão outro nível a uma imagem.

 

 

No entanto, algumas podem ficar igualmente interessantes com uma luz mais sombria, com menos contraste e com menos cor. Por exemplo, gosto de fotografar árvores e a paisagem ao seu redor e, nestes casos, opto frequentemente por dias de nevoeiro.

 

 

Por outro lado, a luz do meio do dia é mais forte e produz muito contraste e sombras muito pronunciadas, o que por norma não é muito apelativo. Apesar de não ter o hábito de fotografar nestas condições pelas razões já mencionadas, por vezes, pode funcionar, principalmente a preto e branco.

 

 

Recomendo fazer um reconhecimento da área que quer fotografar, para tentar perceber qual vai ser a posição do sol na altura do dia em que está a pensar fotografar.

 

Composição:

A composição é outro fator muito importante em qualquer tipo de fotografia, incluindo a fotografia de paisagem. Sem uma boa composição as fotografias vão ser pouco interessantes e não vão chamar a atenção. Não existem propriamente regras que deva seguir para conseguir boas composições, no entanto, há algumas dicas e sugestões que podem ajudar a compor e enquadrar melhor as suas imagens:

  • Contar uma história: se as suas imagens transmitirem uma mensagem impactante, conseguirá despertar mais facilmente emoções a quem as observa. Estas mensagens podem ser muito simples, como por exemplo, uma imagem que transmita a calma das montanhas durante o nascer do sol, ou uma que transmita a violência de uma tempestade na costa, ou ainda uma que transmita o poder de propagação de uma planta invasora, como o chorão, e os problemas que traz para os ecossistemas dunares.

 

 

  • Identificar o sujeito: todas as fotografias de paisagem devem ter um sujeito principal. Claro que podem também conter outros sujeitos secundários, mas ao identificar um sujeito principal será capaz de compor melhor as suas imagens. Esse sujeito pode ser uma rocha, uma montanha, uma árvore, etc.

 

  • Atenção ao horizonte: é muito importante nivelar o horizonte. Pode parecer uma dica com pouca importância, mas uma imagem com o horizonte desnivelado não vai funcionar, mesmo que a composição e a luz sejam fenomenais. É possível corrigir com programas de pós-produção, mas vai perder parte da imagem, o que não é ideal. Muitas câmaras digitais já possuem um nível digital, que ajuda neste processo.

 

  • Use linhas: as linhas naturais de uma paisagem ajudam a guiar os olhos do observador ao longo da imagem até ao sujeito principal, especialmente curvas e formas em “S”, pois são mais agradáveis.

 

 

  • Simplifique: evite adicionar elementos distrativos às suas imagens. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho. Por exemplo, na foto a baixo não consegui encontrar um primeiro plano agradável, era demasiado confuso. Por essa razão, optei por incluir apenas a montanha e aproveitar a simetria da paisagem para simplificar a composição. Usar uma teleobjetiva também ajuda neste processo, pois permite isolar mais facilmente o sujeito principal.

 

 

  • Tenha calma: não se apresse a escolher uma composição e a tirar a fotografia. Enquadre-a cuidadosamente para evitar erros (horizonte desnivelado, cortar elementos importantes, exposição incorreta, etc.), leve o seu tempo para pensar e evite simplesmente apontar e disparar.

 

  • Faça um reconhecimento do local: visitar o local com antecedência evita que ande de um lado para o outro à procura de uma composição no momento em que a luz é a ideal. Mesmo fazendo o reconhecimento, recomendo que quando voltar ao local para fotografar, chegue com cerca de uma hora de antecedência. Assim, caso veja uma composição mais promissora ainda vai ter tempo de a testar.

 

Técnicas fotográficas:

Há algumas técnicas que pode experimentar e que podem ser bastante úteis para melhorar a qualidade do seu trabalho. Seguem as que eu considero mais importantes:

  • Panorâmicas: digamos que quer incluir apenas uma montanha à distância na sua composição e, para isso, terá que usar uma teleobjetiva. No entanto, devido ao estreito campo de visão destas objetivas, não será possível incluir tudo numa só imagem. Nestes casos, pode optar por uma panorâmica, que se baseia em tirar várias fotos verticais e depois uni-las em pós-produção.

 

 

  • Bracketing: Já lhe aconteceu tirar uma foto e o céu ficar sobre-exposto, mas o resto da imagem bem exposta? Para estas situações existem duas soluções: usar um filtro de densidade neutra graduado ou então tirar várias fotografias com exposições diferentes e combiná-las em pós-produção. Se a técnica for bem executada, conseguirá uma imagem final bem exposta a todos os níveis.

 

 

  • Longas exposições: uma longa exposição é conseguida usando uma velocidade de obturador bastante baixa para captar o movimento de objetos de velocidade lenta. Em fotografia de paisagem esta técnica é muitas vezes usada para suavizar água e nuvens. As longas exposições requerem baixos níveis de luz e, por isso, pode ser necessário usar um filtro de densidade neutra.

 

 

 

 

  • Abertura do diafragma e Focus stacking: quando fotografamos paisagens procuramos que todos os elementos da paisagem estejam focados. Eu uso aberturas do diafragma entre f/8 e f/16, mas mesmo assim nem sempre é possível ter tudo focado. Nesses casos opto por uma técnica chamada de “focus stacking”, que consiste em combinar várias imagens tiradas em diferentes distâncias de focagem, resultando numa imagem com uma maior profundidade de campo.

 

Não se esqueça, mesmo não tendo muito do material que refiro neste artigo, não hesite em experimentar, aprender e divertir-se a fotografar paisagens, porque isso é o mais importante.

 

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