Foto: Christopher Shervey
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O que procurar na Primavera: o pinheiro-bravo

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Carine Azevedo fala-nos desta conífera nativa de Portugal associada a alguns dos primeiros reis, à Mata de Leiria e às naus que partiram em busca de novos territórios.

O pinheiro-bravo (Pinus pinaster) está associado a um lugar muito especial para mim – o Pinhal de Leiria. Foi lá onde desenvolvi o trabalho prático do meu primeiro estágio académico e começou a minha paixão pela floresta nativa.

Conheçam uma das principais espécies da floresta nacional, de enorme importância na História do nosso país mas que, por vezes, é visto como o parente pobre da família dos pinheiros.

Pinaceae

O pinheiro-bravo é uma espécie conífera da família Pinaceae. Esta família tem mais de mais de 230 espécies, distribuídas por onze géneros botânicos.

O género Pinus é o mais representativo desta família botânica, com cerca de uma centena de espécies. Trata-se do único género nativo presente em Portugal, representado por três importantes espécies florestais: o pinheiro-manso (Pinus pinea), o pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e o pinheiro-bravo (Pinus pinaster).

O pinheiro-bravo é a espécie do género Pinus presente em Portugal que possui um crescimento mais rápido, sendo considerada a principal espécie florestal nativa usada em repovoamentos.

Foto: Larrousiney/Wiki Commons

Este pinheiro, também conhecido como pinheiro-marítimo ou pinheiro-das-landes, é uma árvore resinosa, perene, de médio a grande porte que pode crescer 20 a 30 metros de altura, podendo mesmo atingir os 40 metros. Possui um tronco direito, revestido com casca castanho-avermelhada, profundamente fendida.

Esta árvore forma uma copa piramidal e regular quando jovem, que se vai tornando mais irregular e arredondada com a idade. Os ramos, dispostos em verticilos são arqueados ou quase horizontais.

As folhas são persistentes, aciculares – em forma de agulha, verde-escuras-acinzentadas, brilhantes, rígidas, pontiagudas e frequentemente torcidas. Surgem agrupadas aos pares e são providas de uma bainha membranosa que as envolve na base. 

O pinheiro-bravo floresce de fevereiro a maio e é uma espécie monóica – as flores unissexuais femininas e masculinas ocorrem na mesma planta. As flores são verde-acastanhadas e ocorrem dispostas em inflorescências. As inflorescências masculinas são douradas, possuem forma de espiga e surgem nos raminhos do ano, ao longo do terço inferior. As inflorescências femininas são vermelho-rósea, possuem uma forma ovóide e surgem geralmente em grupos de três a cinco, na extremidade dos raminhos anuais.

Inflorescência masculina do pinheiro-bravo. Foto: Lumbar/Wiki Commons

As inflorescências femininas dão origem a uma estrutura formada por escamas lenhosas, de cor pardo-avermelhada – a infrutescência, conhecida vulgarmente como pinha ou cone.

A pinha surge pendente sobre um pedúnculo muito curto, possui uma forma ovóide-cónica, é aproximadamente simétrica na base, castanha-avermelhada e brilhante quando madura.

As escamas são rígidas e possuem um escudo proeminente, provido de um mucrão saliente, que protege as sementes.

As sementes, vulgarmente conhecidas como peniscos ou pinhões, são pequenas, castanho-escuras, lustrosas. Surgem geralmente duas a duas em cada escama, e são aladas – providas de uma asa membranácea grande, que ajuda à sua dispersão, a curta distância, por ação do vento.

Foto: Luis Fernández García/Wiki Commons

O ciclo reprodutivo do pinheiro-bravo é de dois anos. A formação da pinha inicia-se com a polinização que ocorre entre abril e maio do primeiro ano. A maturação completa da pinha é atingida entre o final do verão e o início do outono do segundo ano. Só na primavera ou no verão do terceiro ano é que a pinha se torna deiscente, ou seja, altura em que se abre para libertar as sementes.

O pinheiro-bravo é uma árvore de crescimento relativamente rápido, atingindo a maturidade por volta dos dez a 15 anos de idade. É uma espécie de longevidade média, não indo muito além dos 200 anos.

Uma conífera nativa

O pinheiro-bravo é uma espécie nativa do oeste e centro da região mediterrânica, em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Marrocos, Argélia, Tunísia e também nas Ilhas Baleares, Córsega, Sardenha e Sicília.

Em Portugal, esta espécie encontra-se por quase todo o território continental, privilegiando a zona do Litoral. Ocorre em zonas de matos e matagais e pode formar pinhais ou florestas mistas com outras espécies do género Pinus (principalmente com o pinheiro-manso) ou Quercus (azinheiras, sobreiros e outros carvalhos).

O pinheiro-bravo também ocorre nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, onde foi introduzido no passado.

É uma espécie heliófila, ou seja, prefere zonas ensolaradas. É bastante resistente à seca, embora seja exigente em precipitações abundantes e em humidade atmosférica.

Foto: Mario Sánchez/Wiki Commons

É também muito resistente ao frio e às geadas. Embora possa suportar alguma sombra nos primeiros meses de estabelecimento, o pinheiro-bravo é intolerante ao ensombramento, sendo rara a sobrevivência da espécie por mais de um ano em coberto fechado.

A nível edáfico é uma espécie calcífuga, tendo preferência por solos ácidos, soltos, permeáveis e arenosos, onde o seu sistema radicular se desenvolve melhor, podendo no entanto, ocorrer em substratos xistosos. É susceptível à compactação e encharcamento do solo. Do ponto de vista nutricional, não é muito exigente, conseguindo desenvolver-se bem em solos pobres e pouco profundos.

Do ponto de vista ecológico, as áreas naturais de pinheiro-bravo constituem formações vegetais importantes da floresta nativa nacional, pois mantêm uma elevada biodiversidade de fauna e flora, sendo, em alguns casos, refúgio ou nicho de muitas outras espécies.

Além disso, oferece outras vantagens ambientais, como espécie pioneira: diminui a erosão eólica dos solos, servindo de quebra-vento, para além de ocupar e criar valor em solos pobres e degradados, onde dificilmente outras espécies arbóreas se conseguem desenvolver.

O pinheiro-bravo é também uma espécie muito resiliente, rústica e plástica, que evidencia um sistema radicular profundo, que lhe confere uma elevada resistência aos ventos. Produz uma elevada quantidade de sementes, assim como tem um crescimento relativamente rápido.

As áreas ocupadas por pinheiro-bravo são vistas como um dos maiores reservatórios de carbono da floresta nacional.

Essência florestal

O pinheiro-bravo é também uma árvore ornamental muito popular, sendo frequente a sua plantação em jardins, parques e outros espaços verdes, sobretudo ao longo da costa marítima.

Esta espécie também pode ser conduzida sobre a forma de bonsai, ainda que necessite de cuidados muito particulares.

A designação científica desta espécie pode levar a uma interpretação errada da importância desta árvore. O nome do género Pinus é o nome clássico, em latim, dado ao pinheiro e pinaster, deriva da combinação do termo em latim Pinus que significa “pinho” e o sufixo -aster, que dá a ideia de algo “depreciativo”, que indica uma certa semelhança mas de categoria inferior, provavelmente comparando este pinheiro com o pinheiro-manso (Pinus pinea).

O pinheiro-bravo é considerado como o parente pobre do pinheiro-manso, mas tem um grande interesse económico, sobretudo pela grande produção de madeira e de resina.

Foto: Christopher Shervey

A madeira é resinosa, clara, avermelhada, pesada e pouco flexível. É utilizada para mobiliário, construção civil (pavimentos, postes, cofragens, aglomerados, etc.), construção naval, pasta de papel, combustível, entre outras.

Da destilação da resina obtêm-se dois óleos essenciais importantes para diversas indústrias – a terebintina ou aguarrás, e a colofónia ou pez.

A essência de terebintina é empregue na síntese de compostos aromáticos de aplicação em farmacológica, em perfumaria, em tinturaria (vernizes e tintas) e na obtenção de plásticos.

A colofónia ou pez é usada na base de rebuçados, pastilhas elásticas, na preparação de colas, endurecedores de pneus, entre outros.

Em fitoterapia, o pinheiro-bravo possui propriedades: antisséptica, diurética, expectorante e balsâmica. É comum a sua utilização no tratamento de doenças respiratórias (gripe, bronquite, tuberculosa e pneumonia), dores reumáticas e também favorece a eliminação de toxinas no sangue.

O pinheiro dos Reis e dos Descobrimentos

O pinheiro-bravo tem uma forte ligação à História do nosso país. D. Sancho II (1209-1248) e o filho D. Afonso III (1210-1279) ordenaram a plantação de pinheiro-bravo para arborizar as areias das dunas do Litoral, as serras do Interior e outros terrenos declivosos e degradados devido ao uso agrícola intensivo. Foi nessa época que se deu início à plantação do Pinhal de Leiria, também conhecido como Pinhal d’El Rei ou Mata Nacional de Leiria. 

Durante o reinado de D. Dinis (1279-1325) esta área chegou a ocupar cerca de 11 mil hectares. Foi uma das primeiras grandes florestas europeias que beneficiou da proteção dos poderes públicos. 

Nos séculos XV e XVI, a madeira de pinheiro-bravo passou a ter um outro papel de destaque na história do nosso país – os Descobrimentos. Foi utilizada na construção das embarcações que partiram a caminho das descobertas, com cerca de 35% da madeira usada na construção das naus portuguesas a ter origem do Pinhal de Leiria.

A crescente procura de matéria-prima deu origem à Lei das Árvores, datada de 1565. Esta lei estabelecia a obrigatoriedade de plantação de espécies para madeira, incluindo pinheiro-bravo. Por cada árvore que fosse cortada, uma nova deveria ser plantada, mantendo-se assim esta mancha florestal ao longo de vários séculos.

A Lei das Árvores promoveu ainda a reflorestação de outras áreas com carvalhos, pinheiros e castanheiros.

Uma riqueza ameaçada

No século XX, a área de pinheiro-bravo sofreu um decréscimo acentuado em todo o território nacional. Dos vários factores responsáveis por essa perda destacam-se: o abandono de áreas rurais, a conversão de áreas de pinhal em espaços urbanos, a substituição desta espécie por outras de mais rápido crescimento, os incêndios, e as pragas e doenças.

O pinheiro-bravo é uma das espécies do género Pinus mais resistente a pragas e doenças. Mesmo assim, esta espécie é vulnerável à processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa), cujas lagartas comem as agulhas, podendo causar grandes danos por desfolhamento massivo, levando mesmo à morte da planta.

Outra das doenças que tem afetado significativamente esta espécie nos últimos anos é a Murchidão do Pinheiro, também conhecida como doença do nemátodo da madeira do pinheiro, causada por um nemátodo (Bursaphelenchus xylophilus). A disseminação do nemátodo está associada a um inseto vetor, vulgarmente conhecido como longicórnio-do-pinheiro (Monochamus galloprovincialis). Esta doença conduz à murchidão total do pinheiro: os ramos e as agulhas secam, há uma diminuição da produção de resina e a árvore acaba por morrer.

Foto: William Scot/Wiki Commons

Em 2017, grandes incêndios devastaram cerca de 80% da área daquela que foi, durante muitos anos, considerada a maior e mais antiga floresta nacional. Perdeu-se uma herança e património natural ímpares, que levarão muito tempo a recuperar. Foram quase 700 anos de história que se desfizeram em cinzas.

Como no passado, é preciso que se desenvolva um plano de recuperação desta área, para que possa renascer aquele que foi, durante vários séculos, um dos maiores pulmões verdes de Portugal.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Resinosa – planta que produz resina e que pertence ao grupo das coníferas.

Perene – planta que tem um ciclo de vida longo.

Verticilo – nó onde se insere um conjunto de órgão idênticos (ex. ramos, folhas, etc.).

Persistente – folhagem que se mantém verde, na árvore, ao longo de todo o ano, renovando gradual sem que a árvore fique despida.

Acicular – em forma de agulha.

Bainha – parte basal de certas folhas, que envolve mais ou menos o eixo.

Monóica – espécie que apresenta flores femininas e masculinas separadamente na mesma planta.

Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.

Escama – folha rudimentar, modificada, coriácea ou lenhosa, que protege as sementes.

Infrutescência – reunião de frutos provenientes de flores dispostas em inflorescências.

Pinha ou cone – órgão reprodutor das árvores coníferas (tipo de pseudofruto), geralmente de forma cónica, composto por escamas lenhosas, que se sobrepõem parcialmente, dispostas helicoidalmente ao longo de um eixo central, e que protegem as sementes.

Pedúnculo – “Pé” que sustenta a infrutescência.

Escudo – parte externa e visível das escamas da pinha.

Mucrão – ponta curta, aguda e rígida, de cada uma das escamas.

Penisco – semente do pinheiro-bravo – um pinhão de menores dimensões.

Alada – apresenta uma estrutura específica – asa – que auxilia a dispersão pelo vento.

Heliófila – planta que vive preferencialmente em locais de exposição solar plena. Necessita da luz solar para um bom desenvolvimento.

Calcífuga – planta que não se desenvolve em solos calcários.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.