Foto: Luis nunes alberto
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O que procurar no Outono: a boca-de-lobo

Início

As bocas-de-lobo chamam a atenção pelas suas pequenas e coloridas flores, numa época do ano em que as flores são raras. 

Estão por todo o lado: nas fendas de rochas, paredes e muros, em locais rochosos ou pedregosos, na berma de caminhos. Em meio urbano facilmente as encontramos nas fendas de paredes e muros degradados.

Ainda que os registos fenológicos indiquem que a época principal de floração ocorre entre abril e julho, as bocas-de-lobo (Antirrhinum majus subsp. linkianum) encontram-se em flor praticamente o ano todo, incluindo durante o inverno.

Venham descobrir esta espécie endémica da Península Ibérica.

Boca-de-lobo

A boca-de-lobo pertence à família Plantaginaceae e é também vulgarmente conhecida como erva-bezerra, erva-de-zorra, focinho-de-coelho ou papões.

Foto: Carsten Niehaus / Wiki Commons

É uma planta herbácea, perene, que pode crescer entre 30 a 60 centímetros de altura. É formada por caules lenhosos, simples, ou geralmente muito ramificados, ascendentes ou erectos, e glabros, às vezes esparsamente pubescentes na parte inferior. O indumento da base é composto por pêlos translúcidos, amarelados e lisos.

As folhas são verdes e glabras, ainda que por vezes esparsamente pubescentes na página superior e de tonalidade púrpura na página inferior. Possuem forma ovada a lanceolada, são subagudas, truncadas ou em forma de cunha na base. São delgadas, flexíveis e planas e surgem dispostas ao longo do caule de forma distinta. 

As folhas inferiores são opostas e as superiores alternadas. Possuem um pecíolo curto, que tem apenas até três milímetros de comprimento.

Já a floração ocorre ao longo de todo o ano, ainda que tenha uma maior profusão nos meses de primavera e de verão. As flores surgem em inflorescências densas, pubescentes, semelhantes a cachos terminais, e cada uma destas inflorescências é composta por 10 a 30 flores dispostas alternadamente. Estas últimas estão protegidas por brácteas – folhas modificadas localizadas na base da flor, que a protegem enquanto está fechada, e que são marcadamente diferentes das restantes folhas que a espécie apresenta.

Foto: Luis nunes alberto / Wiki Commons

Quanto às flores são hermafroditas (masculinas e femininas na mesma flor), pentâmeras, zigomórficas e solitárias, e surgem na axila das brácteas. Possuem um pedicelo mais ou menos reto e flexível, mais longo que a bráctea.

O cálice é profundamente fendido, composto por cinco sépalas verdes, com tons púrpura, densamente recobertas por pêlos.

No que respeita à corola, esta é simpétala, ou seja, as suas pétalas encontram-se todas fundidas. Possui cor rosa a púrpura, é pubescente e tubular (constituída por um tubo que se abre em dois lábios, bilabiada), e por vezes esbranquiçada na base e com veios rosados ou púrpura e com palato amarelo.

O fruto é uma cápsula deiscente, oblonga a ovóide, com uma parede lenhosa, pubescente e com pedúnculo curto. Em cada cápsula existem numerosas sementes, muito pequenas, reticuladas e negras. 

Endémica da Península Ibérica

A boca-de-lobo é um endemismo Ibérico, presente sobretudo na parte ocidental da Península Ibérica. Em Portugal é mais comum nas regiões do Centro e Sul, sobretudo na faixa do Litoral, ainda que também se possam encontrar nas regiões do Norte em pequenos núcleos, preferencialmente em sistemas dunares e arribas.

Em Espanha só ocorre naturalmente no Litoral Oeste da província galega da Corunha.

É uma planta bem adaptada a diferentes condições edafo-climáticas, com preferência por locais de exposição solar plena, ainda que se desenvolva em ambientes de meia-sombra.

É comum em solos soltos, afloramentos e paredes rochosas, com preferência por substratos calcários, mas também presente em substrato silicioso. Prefere solos ricos em matéria orgânica e bem drenados, mas também suporta bem os solos secos.

Cresce igualmente em ambientes costeiros, nomeadamente sistemas dunares e ambientes ripícolas. E suporta bem o frio.

Flores sofisticadas

A intensa floração das suas belas e delicadas flores, que ocorre durante quase todo o ano, tornam a boca-de-lobo uma planta ornamental interessante para a decoração de jardins e outros espaços verdes. Pode ser plantada em canteiros, bordaduras e vasos, e até ser cultivada como flor de corte.

Estudos recentes apontam para que a boca-de-lobo seja uma alternativa interessante, adequada e bem adaptada à implementação de coberturas verdes (telhados, muros e outras coberturas) pela baixa necessidade de manutenção, valor estético e reduzido consumo de água.

Hoje em dia, existem muitas variedades e cultivares, com flores de cores e combinações diversas.

A combinação desta planta com outras espécies, ou a sua plantação de forma isolada, criam ambientes coloridos muito particulares, muito devido ao formato característico das suas flores.

Foto: Miguel Porto / Flora-On

Com um olhar mais atento, é possível ver que as flores destas plantas têm algo de sofisticado. Quando apertadas lateralmente abrem, lembrando a “boca” de um lobo, de um leão ou de um dragão, e daí o seu nome comum – boca-de-lobo. Já para os Ingleses é conhecida como ‘snapdragon’.

Esta não é nada mais do que uma estratégia da flor para dificultar a saída dos seus polinizadores e assim facilitar a polinização. A entrada da flor está fechada, e apenas os insectos mais fortes e pesados (insectos Hymenoptera, Lepidoptera ou Diptera) a conseguem abrir.

O vento também é um bom agente dispersor de pólen, assim como o beija-flor, que consegue “abrir a tampa” da flor e chegar ao néctar que existe no seu interior. Néctar que é também muito apreciado pelas abelhas.

Uma flor de nariz grande

Esta planta também tem sido explorada pelas suas possíveis propriedades medicinais, por ser rica em glicosídeos e iridoides.

Os glicosídeos podem garantir uma ação calmante, emoliente, diaforética, diurética e anti-inflamatória e os iridoides podem apresentar propriedades antimicrobianas e antifúngicas e um possível papel como aleloquímico.

Estas substâncias (iridoides e glicosídeos) têm como principal função a defesa contra predadores, ainda que não haja evidências de que tenha função defensiva em relação à alimentação herbívora de insectos e de outros animais vertebrados.

Segundo a medicina popular, esta planta pode ser usada em aplicações tópicas, para o tratamento de queimaduras e semelhantes, podendo acalmar queimaduras solares, por exemplo. E também pode ser usada em infusões para tratar as mais diversas inflamações e úlceras.

A designação científica desta espécie está muito associada às suas flores. O nome do género Antirrhinum deriva da combinação de duas palavras gregas: antí, que significa “semelhante” ou “semelhante a”, e rhín ou rhinós, que significa “nariz”, e que se refere à forma particular da corola – semelhante ao nariz de certos animais, como o lobo ou o leão.

Já o restritivo específico majus deriva do latim magnus, que significa “grande, maior ou mais longo”, comparativamente a outras espécies do mesmo género.

Outros Antirrhinum em Portugal

O género Antirrhinum tem uma área de distribuição nativa muito localizada, ocorrendo naturalmente na região oeste e central do Mediterrâneo (em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Argélia, Tunísia, Marrocos, Líbano, Síria, Líbia, Sicília e Baleares).

Das 21 espécies aceites atualmente em todo o mundo, seis estão presentes em Portugal, um pouco por todo o território continental, ainda que algumas tenham um habitat muito particular.

Destas, cinco são espécies endémicas da Península Ibérica: a Antirrhinum majus subsp. linkianum (antes classificada como A. linkianum), a A. graniticum, a A. cirrhigerum, a A. molle subsp. lopesianum (antes A. lopesianum), a A. meonanthum e a A. graniticum subsp. graniticum (antes A. onubense).

O dragão-das-arribas (A. molle subsp. lopesianum) está classificado como uma espécie Vulnerável em Portugal Continental, segundo a IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza. De acordo com a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, a sua área de distribuição natural em Portugal está “restrita ao Nordeste Transmontano, ocorrendo exclusivamente nas escarpas do rio Douro e de alguns dos seus afluentes”.

Dragão-das-arribas. Foto: Carlos Aguiar / Flora-On

A Antirrhinum rothmaleri destaca-se das restantes por ser uma espécie endémica da região de Trás-os-Montes. Segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, “é um táxon endémico do nordeste de Portugal, adaptado a um tipo de habitat muito específico, afloramentos em rochas ultrabásicas. A população é constituída por um número reduzido de núcleos populacionais (seis) …”. É avaliada como Em Perigo porque se estima que a população seja constituída por menos de 250 indivíduos maduros.”

Antirrhinum rothmaleri. Foto: Carlos Aguiar / Flora-On

Basta um olhar atento para encontrar bocas-de-lobo e as suas flores de tantas cores em qualquer altura do ano. Até mesmo no inverno.


Dicionário informal do mundo vegetal:

Ascendente – ramo que se desenvolve na posição horizontal ou quase, mas que tende a verticalizar.

Glabra – sem pelos.

Pubescente – que tem pelos finos e densos.

Ovada – folha com a forma de um ovo mais larga perto da base.

Lanceolada – cada folíolo apresenta a forma de lança.

Subaguda – quase aguda.

Truncado que termina por uma linha ou plano perpendicular aocomprimento ou à altura.

Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.

Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.

Bráctea – folha modificada, localizada na base da flor que a protege enquanto está fechada.

Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).

Pentâmera – as peças florais apresentam-se em conjuntos de cinco ou em múltiplos de cinco.

Zigomórfica – flor cuja corola possui apenas um plano de simetria, ou seja com simetria bilateral.

Pedicelo – “pé” que sustenta a flor.

Cálice – conjunto das peças florais de proteção externa da flor – sépalas.

Sépala – peça floral, geralmente verde, que forma o cálice.

Corola – conjunto das pétalas, que protegem os órgãos reprodutores da planta (os estames e o pistilo).

Simpétala – corola cujas pétalas se encontram unidas (“soldadas”) entre si.

Pétala – peça floral, geralmente colorida ou branca, que forma a corola.

Tubular – flor cuja corola possui um tubo muito alongado.

Bilabiada – corola simpétala ou cálice sinsépalo com segmentos dispostos em duas partes – os lábios – opostas.

Palato – saliência do lábio inferior da corola personada (simpétala e bilabiada), a qual encerra a fauce (tubo da corola) por se encostar ao lábio superior.

Deiscente – fruto que, quando maduro, se abre naturalmente para libertar as sementes.

Oblongo – fruto com forma aproximadamente retangular, com polos arredondados.

Pedúnculo – “Pé” que sustenta o fruto.


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.