Foto: Adrian/Wiki Commons
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O que procurar no Outono: o pepino-de-São-Gregório

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Tal como os animais, também as plantas manifestam ritmos e movimentos, conta-nos Carine Azevedo a propósito desta planta “explosiva”, que por estes dias ainda podemos encontrar em flor ou a dar frutos de norte a sul do país e também nos Açores.

 

As plantas são mais do que elementos decorativos de um espaço interior, de um jardim ou de qualquer outro espaço verde. Além de nos encantarem com as suas flores e folhagens exuberantes, algumas também nos brindam com movimentos peculiares.

Embora não se desloquem de um lado para outro, como acontece com os animais, não podemos dizer que as plantas são seres estáticos.

Algumas plantas têm movimentos muito lentos, difíceis de acompanhar. No entanto, há outras que exibem movimentos rápidos, mais perceptíveis, que conseguimos acompanhar com um olhar atento.

O girassol é um dos exemplos mais famosos. Estimuladas pelo sol, as suas flores e as suas folhas acompanham o astro durante o dia, tombando quando anoitece.

Outro exemplo, é o pepino-de-São-Gregório (Ecballium elaterium), uma planta bastante popular na medicina tradicional, que possui um mecanismo muito particular e engenhoso de dispersão das suas sementes.

Venha descobrir esta espécie de personalidade explosiva.

 

Cucurbitaceae

O pepino-de-São-Gregório é um membro da família Cucurbitaceae, que compreende pouco mais de uma centena de géneros botânicos e cerca de 1000 espécies, algumas da quais com uma elevada importância económica.

A melancia (Citrullus lanatus), o melão (Cucumis melo), o pepino (Cucumis sativus), a cabaça (Lagenaria siceraria) e a abóbora-menina (Cucurbita maxima) são algumas das plantas que compõem esta família de herbáceas, raramente arbustivas, anuais ou perenes, com um desenvolvimento maioritariamente prostrado, mas que por possuírem gavinhas facilmente trepam sobre alguma estrutura.

As plantas desta família foram das primeiras plantas cultivadas no Velho e no Novo Mundo e, embora sejam extremamente sensíveis a temperaturas muito baixas, fator que limita a sua distribuição geográfica e áreas de cultivo, podem ocorrer desde os trópicos às áreas temperadas.

 

Pepino-de-São-Gregório

O pepino-de-São-Gregório (Ecballium elaterium) é o único representante do género Ecballium.

Esta planta é também popularmente conhecida como pepino-explosivo, momórdica, pepineiro-bravo, pepineiro-de-São-Gregório, pepino-do-diabo, ou pepineiro-selvagem.

Foto: Patrice78500/Wiki Commons

É uma espécie herbácea perene, coberta por pêlos esbranquiçados e rígidos, mas não espinhosos. Possui uma raiz carnuda e ramifica apenas na base, dando origem a caules muito ramificados, grossos e tenros, prostrados e rastejantes, que podem crescer entre 20 a 150 centímetros de comprimento.

Ao contrário da maioria das plantas da família, o pepino-de-São-Gregório não possui gavinhas.

As folhas crescem alternadamente ao longo dos caules, são grossas e tenras e têm forma cordada (coração) ou triangular. São de cor verde-pálido na página superior e mais claras na face inferior. As margens são onduladas e irregularmente dentadas e o pecíolo é longo.

O Ecballium elaterium pode apresentar indivíduos com flores femininas e masculinas separadamente na mesma planta – monóicos –, ou indivíduos que apresentam flores unissexuadas, femininas e masculinas, ocorrendo em indivíduos diferentes – dióicos.

Esta distinção levou à classificação de duas subespécies: a Ecballium elaterium subsp. elaterium – cujas plantas são monóicas – e a Ecballium elaterium subsp. dioicum – com plantas dióicas.

Já o período de floração é longo, podendo ocorrer de março a novembro. As flores são amareladas, ligeiramente campanuladas, com cerca de 2,5 centímetros de diâmetro. São formadas por cinco sépalas verdes e cinco pétalas amarelo-pálido.

Foto: Adrian/Wiki Commons

Enquanto que as flores femininas aparecem solitárias na extremidade dos raminhos e a parte central da flor apresenta um tom esverdeado, as flores masculinas ocorrem em cachos de quatro a seis e assumem um tom amarelo-vivo na parte central, devido aos estames amarelo-brilhantes.

Na subsp. dioicum, as flores são mais numerosas nos exemplares masculinos do que nos femininos.

Quanto ao fruto, é um pepónio – um fruto característico dos membros da família Curcubitaceae. É oblongo-cilíndrico, verde, coberto de cerdas brancas, com quatro a cinco centímetros de comprimento e sustentado por um longo pedúnculo que o deixa pendente.

 

Uma espécie de temperamento explosivo

Quando atinge a maturação, o pepino de São-Gregório torna-se verde-amarelado e, ao menor toque, “explode” devido à pressão contida no seu interior, libertando as pequenas sementes acastanhadas. As sementes são de forma oval e ligeiramente achatadas e encontram-se envolvidas numa mucilagem pegajosa e cáustica.

Foto: JCamejo/Flora-On

O mecanismo hidráulico de dispersão das sementes permite a sua projeção a vários metros de distância da planta mãe, o que facilita a colonização de novas áreas. Este processo engenhoso e muito peculiar de dispersão das sementes está na origem, relativamente recente, da denominação científica desta espécie.

O nome do género Ecballium deriva da combinação dos termos gregos eklallein + ballein, e significa “lançar”, “expulsar para fora”, em referência ao tipo de deiscência do seu fruto, em que as sementes são impulsionadas por um mecanismo explosivo.

 

Distribuição e habitat

Esta planta é uma espécie nativa do sul da Europa e da região do Mediterrâneo, também ocorrendo nas Ilhas Canárias. Em Portugal, pode ser encontrada um pouco por todo o território, embora seja menos comum na região Litoral Norte. O pepino-de-São-Gregório também ocorre no Arquipélago dos Açores, onde foi introduzido.

É uma planta ruderal, comum em meios humanizados, na berma de caminhos, ruínas e muros, na orla de matas, terrenos baldios e incultos e outros locais sujeitos a perturbação constante.

Tem preferência por exposições solares plenas e de meia-sombra, e embora cresça em todos os tipos de solos, prefere aqueles que possuam uma boa drenagem. É muito resistente ao frio, podendo suportar temperaturas até -4ºc.

 

Medicinal mas …

Esta planta é bastante popular na medicina tradicional, no tratamento de dores reumáticas, artroses e espondilose. No entanto, é uma espécie altamente tóxica, com um forte poder purgativo e abortivo, não sendo aconselhável a sua utilização interna e muito menos sem qualquer acompanhamento de um profissional de saúde.

Estudos recentes revelam que, além do tratamento das dores, esta espécie tem outras propriedades medicinais e pode ser usada no tratamento da ciática, reumatismo, nevralgias, cancro, distúrbios hepáticos, icterícia, constipação, hipertensão, hidropisia, entre outras.
Os resultados obtidos nesses estudos comprovam que o extrato aquoso obtido dos frutos é anti-inflamatório e analgésico e que também possui atividade antimicrobiana.

Por outro lado, o restritivo específico elaterium deriva do termo grego elaterion, que significa “purgante ou abortivo”, que é uma das propriedades atribuídas a esta planta.

Foto: RickP/Wiki Commons

Nenhuma das partes é comestível e é necessário algum cuidado com os frutos, sobretudo quando maduros, pois quando “explodem” libertam um líquido muito irritante quando entra em contacto com a pele.

O pepino-de-São-Gregório não é comumente utilizado com fins ornamentais. No entanto, a mistura de flores masculinas e femininas em tons amarelos e os frutos verdes tornam-no numa solução estética agradável para a cobertura desordenada do solo, num jardim que se pretenda natural, ou simplesmente para ter num vaso ou numa floreira. Mas lembre-se de que os frutos requerem um cuidado especial.

 

Outros movimentos das plantas

Existem muitas outras plantas também conhecidas por se mexerem bastante.

Algumas plantas carnívoras, como a dioneia (Dionaea muscipula), também conhecida como apanha-moscas, possuem armadilhas ativas que usam para capturar e consumir as suas presas, em geral pequenos insectos e aracnídeos. As folhas destas plantas formam uma estrutura semelhante a um bivalve que se fecha repentinamente ao sentirem a existência de algo no seu interior.

O mecanismo de captura ocorre quando a presa toca nos pêlos situados na parte interna da armadilha. Se a presa não conseguir escapar, continuando a estimular os pêlos, dá-se início ao processo de digestão. Após esse período, a armadilha volta a abrir-se para repetir o processo de captura ou simplesmente para apoiar o processo de fotossíntese.

Por outro lado, na ausência de estímulos adicionais – porque a presa escapou, por exemplo – a armadilha volta a abrir-se para evitar o esforço, aguardando um novo estímulo.

A sensitiva (Mimosa pudica) é outra planta cujos movimentos são bastante notórios. As suas folhas, quando tocadas com os dedos ou movidas pelo vento, contraem-se sobre o caule como se fossem fechar e, ao mesmo tempo, os raminhos menores tendem a tombar ligeiramente, dando a ideia de que a planta está murcha.

Sensitiva (Mimosa pudica). Foto: Davidraju/Wiki Commons

Este é um mecanismo de defesa da planta contra os predadores. No entanto, também funciona como um sistema de proteção das condições adversas do meio. Durante as horas de maior calor, as folhas contraídas ajudam a sensitiva a conservar mais água, também favorecendo a proteção contra o vento.

Já a Sparrmannia africana possui um mecanismo de movimento nas flores. Quando tocados, os estames daquelas eriçam-se e incham, num processo conhecido como haptonastia. Julga-se que se trata de uma estratégia da planta para aumentar a polinização, atraindo dessa forma os polinizadores.

Da próxima vez que olhar para uma planta, não pense nela apenas como um ser imóvel. Existe muita coisa a acontecer lá dentro. Tal como os animais, também as plantas manifestam ritmos e movimentos.

E não se esqueça, se encontrar o pepino-de-São-Gregório numa das suas caminhadas, é possível que ainda o encontre com frutos ou com flores durante o mês de Outubro. Fotografe e partilhe as suas fotografias nas redes sociais, com #oqueprocurar #plantasdeportugal #floranativa e #àdescobertadasplantasnativas.

 


Dicionário informal do mundo vegetal:

Herbácea – planta de consistência não lenhosa e verde.

Anual – planta cujo ciclo de vida se completa num ano.

Perene – planta que tem um ciclo de vida longo e que viver três ou mais anos.

Prostrado – estendido sobre o solo.

Gavinha – estrutura filamentosa, resultante da transformação da extremidade dos ramos, que tem a faculdade de se enrolar em hélice, através da qual as plantas se conseguem fixar a suportes.

Cordada – folha de limbo arredondado com a forma de um coração.

Limbo – parte larga de uma folha normal.

Dentada – folha provida de dentes mais ou menos perpendiculares à linha da margem.

Pecíolo – “pé” da folha que liga o limbo ao caule.

Monóica – espécie que apresenta flores femininas e masculinas separadamente na mesma planta.

Unissexual – flor que possui apenas órgãos reprodutores femininos (carpelos) ou masculinos (estames).

Dióica – espécie que apresenta flores unissexuadas, femininas e masculinas, ocorrendo em indivíduos diferentes.

Campanulada – em forma de sino invertido.

Sépala – peça floral, geralmente verde, que forma o cálice e que protege externamente a flor.

Pétala – peça floral, geralmente colorida ou branca, que forma a corola e que protege os órgãos reprodutores da planta (os estames e o pistilo).

Cacho – inflorescência cujas flores com pedicelos, se inserem ao longo de um mesmo eixo.

Pedicelo – “pé” que sustenta a flor.

Estame – órgão reprodutor masculino da flor, onde se produz o pólen.

Pepónio – fruto típico de certas Cucurbitaceae, é carnudo e rijo.

Ruderal – vegetação que se desenvolve em meios resultantes da atividade humana (como sejam berma de caminhos, taludes de vias de comunicação, imediações de lixeiras e entulhos, campos abandonados, etc.).

 


Todas as semanas, Carine Azevedo dá-lhe a conhecer uma nova planta para descobrir em Portugal. Encontre aqui os outros artigos desta autora.

Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no mail carinea.azevedo@gmail.com. E pode segui-la também no Instagram.