Luís Afonso fotografou todas as orquídeas das Serras de Aire e Candeeiros

Ophrys scolopax. Foto: Luís Afonso

Luís Afonso, fotógrafo de natureza, contou à Wilder como é que juntou num único projecto duas coisas que o apaixonam: as orquídeas silvestres e as paisagens do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros.

 

“Olho para a fotografia como uma disciplina artística e não me interessa apenas o acto da colecção de cromos”, explica Luís Afonso, 48 anos, que decidiu fotografar todas as orquídeas do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). “Queria fazer imagens interessantes com esta flor tão apaixonante. Foi o que andei a fazer nos últimos anos, desde que enquadrei a primeira orquídea numa fotografia de paisagem em Março de 2013.”

 

Luís Afonso no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Foto: Ana Sofia Serra

 

Oito anos antes dessa primeira foto, tinha descoberto o fascínio da fotografia de natureza. Até ali sempre lhe tinha interessado captar imagens do meio urbano – “viagem, arquitectura e depois as pessoas” – mas foi em 2005 que conheceu “alguns fotógrafos de paisagem que são agora referências na fotografia portuguesa” e se deixou contagiar pela “paixão” da paisagem natural. Hoje, é o principal responsável pela programação do Imaginature, festival de fotografia de paisagem nacional, em Manteigas.

Mas apesar de ter crescido a 15 minutos do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), no Entroncamento – na casa onde vivem hoje os pais e onde regressa muitas vezes – só descobriu de verdade o PNSAC “por causa da fotografia, no Inverno de 2009”, recorda.

Foi neste parque natural – onde devido à pedra branca existem locais que lhe “fazem lembrar a lua, sem nunca lá ter estado” – que começou a reparar nas orquídeas, presença habitual na paisagem entre Fevereiro e Abril. “Muito por causa da Orchis mascula que é muito comum nas zonas onde costumo ir e muito vistosa. A sua cor rosa não deixa ninguém indiferente.”

Mas nunca as fotografou com atenção até descobrir as Ophrys, guiado por um amigo.

 

Ophrys apifera. Foto: Luís Afonso

 

“Quando vi o seu aspecto, semelhante a um insecto, fiquei completamente apanhado. Depois quis conhecer, fui ler coisas sobre elas e fiquei espantado pelas suas estratégias de reprodução. Passado uns poucos dias já tinha livros em casa, já devorava artigos na Internet”, lembra.

 

De planta exótica a flores apaixonantes

O mesmo amigo, “que conhece a paisagem da zona como poucos”, contou-lhe que no PNSAC estão mais de metade das orquídeas silvestres que existem em Portugal.

E apesar de não ser um apaixonado por flores e de olhar para as orquídeas como algo exótico – só as conhecia como “uma grande bandeira da ilha da Madeira” –  Luís Afonso encontrou um interesse que não largou mais. “Fiquei espantado quando descobri que podiam crescer nos campos de um país com o clima de Portugal, com uma diversidade tão grande como a que existe. Não tinha como não ir atrás delas.”

 

Ophrys scolopax. Foto: Luís Afonso

 

Foi lendo entretanto todos os materiais de referência que encontrava e descobriu que há espécies emblemáticas do PNSAC, incluindo algumas que só existem nesta zona. Aqui, estão registadas “mais de 30 espécies de orquídeas, incluindo algumas raras, repartidas por 11 géneros botânicos”, enumera.

Passados dois ou três anos de visitas aos locais onde crescem, decidiu fotografar todas as diferentes espécies de orquídeas desta área protegida, “para as dar a conhecer e fazer um trabalho o mais completo possível”. Foi assim que desde Abril de 2015 começou a percorrer diferentes paisagens do parque natural em busca destas plantas misteriosas. Em 2019 e 2020 fez também muita investigação à procura das espécies mais raras.

“Contei com amigos naturalistas e muita bibliografia e consegui localizar todas as espécies conhecidas à data no PNSAC, ao todo cerca de 40 se contarmos com híbridos e variações de cor.”

 

Deitado com as flores e olhares de soslaio

As próprias fotografias foram mudando: no princípio queria apenas “marcar mais uma espécie na lista”, mas a pouco e pouco começou a interessar-se por “captar imagens com interesse estético e não apenas científico”.

Mas é claro que dá nas vistas “um homem corpulento a fotografar flores deitado no chão”. Luís Afonso já sabe que nesses momentos há quase sempre alguém que pára para lhe perguntar se está bem. E quando explica o que está a fazer, já tem recebido olhares de soslaio. “Por certo acham que flores e homens só combinam se houver uma mulher a quem as oferecer por perto”, graceja.

 

Foto: Ana Sofia Serra

 

Nestas andanças tem encontrado também pessoas igualmente apaixonadas, “como uma senhora que mora em Inglaterra e vem todos os anos na Primavera para o Parque só para ver as flores”.

E as histórias pessoais de descoberta? “Quando andas à procura de uma espécie com indicações meio vagas de algum amigo e finalmente, após algumas horas a olhar para o chão, a encontras pela primeira vez. Acho que é uma sensação que não se esquece, tal como nunca me esqueço da primeira visão da Spiranthes Spiralis – depois de a procurar há algumas temporadas – ou do encontro com uma espécie rara como a Ophrys tenthredinifera subsp. ficalhoana ou a Dactylorhiza romana subsp. guimaraesii, espécies que estão no limiar do desaparecimento.”

No futuro, adianta, o objectivo é partilhar todo este conhecimento, com a publicação de um guia das orquídeas do PNSAC.

 

[divider type=”thin”]Saiba mais.

Descubra mais sobre o trabalho de Luís Afonso, aqui e aqui, e fique a conhecer as orquídeas favoritas desde fotógrafo de natureza.