Foto: Ronaldo Sousa

Amêijoa asiática: Esta invasora teve uma capacidade de dispersão “absolutamente notável”

Em 40 anos, a amêijoa asiática (Corbicula fluminea) chegou praticamente a todos os rios de Portugal Continental.

No âmbito de uma série sobre espécies aquáticas invasoras, publicada na Wilder em parceria com o projecto LIFE Invasaqua, falámos com Ronaldo Sousa, professor da Universidade do Minho ligado ao Aquatic Conservation Lab. Este especialista explicou à Wilder o que se passa actualmente com a amêijoa asiática e quais são os problemas que este pequeno bivalve causa:

Que espécie é esta?

É um bivalve de água doce, se bem que consiga colonizar também as partes superiores de zonas estuarinas, e que mede no máximo 55 milímetros. Estas amêijoas podem apresentar uma cor variada, que vai desde o castanho escuro ao amarelo, ou mesmo tons esverdeados. Estas mudanças de cor podem estar muito relacionadas com o tipo de sedimento onde a espécie está presente.

Foto: Ronaldo Sousa

A amêijoa asiática é nativa da Ásia, incluindo a China, o Vietname e o Laos, entre outros países. É uma espécie filtradora que consome de preferência partículas em suspensão na coluna de água, como o fitoplâncton e bactérias. E tem uma particularidade: com a ajuda do seu pé, alimenta-se de matéria orgânica presente no sedimento.

Por outro lado, esta espécie invasora atinge a maturidade sexual logo no primeiro ano de vida, pelo que começa rapidamente a reproduzir-se. Não costuma viver mais do que cinco a sete anos, estando a longevidade altamente relacionada com a temperatura e com a quantidade de alimento disponível no ecossistema onde habita.

Sabe-se também que é uma espécie hermafrodita, ou seja, a mesma amêijoa consegue assumir os dois géneros sexuais, feminino e masculino. As larvas ficam algum tempo nas brânquias dos progenitores e são depois libertadas diretamente na coluna de água. E nessa altura, são ainda bastante minúsculas: cada uma tem à volta de 200 micrometros (µm), sendo que cada micrómetro equivale à milésima parte de um milímetro.

E como é que pode ser identificada?

É facilmente detectável, porque em ecossistemas de água doce não existem espécies de bivalves com uma forma (triangular) semelhante. Por outro lado, normalmente estas conchas acumulam-se em grandes quantidades junto às margens, transportadas por exemplo durante o Inverno. E assim são fáceis de identificar.  

Foto: Bjorn S / Wiki Commons

Sabe-se como chegou a Portugal?

A rota de introdução da amêijoa asiática permanece desconhecida. Nos últimos anos, fizeram-se vários trabalhos de genética, mas não foram esclarecedores de forma a perceber-se de onde vieram os primeiros indivíduos.

Mas sabe-se que o primeiro registo da espécie ocorreu no rio Tejo, sendo possível que desde o final da década de 1970 a espécie já estivesse presente no nosso país. O transporte e descarga de água de lastro contaminada com esta amêijoa e a introdução por humanos para posterior consumo são alguns dos possíveis meios de introdução desta invasora. Mas tal como outras hipóteses, estas permanecem especulativas.

Entretanto, do rio Tejo a amêijoa asiática rapidamente passou para os restantes rios portugueses. E para isso acontecer, houve várias possibilidades viáveis: pode ter sido utilizada como isco para pesca, ou em aquariofilia e ainda no uso para consumo humano, ou mesmo ter sido transportada por vectores naturais (aves e mamíferos).

Foto: Dat doris / Wiki Commons

Aliás, a dispersão natural é facilitada pela presença de uma estrutura mucilaginosa nestas amêijoas, que lhes permite prenderem-se a sedimentos, vegetação ou outras estruturas. E assim disseminam-se facilmente através das correntes, aderida a barcos, botas, redes ou outro material de pesca. 

E qual é a situação noutras regiões do mundo?

Esta amêijoa é uma das 100 espécies mais invasoras do mundo, estando presente em todos os continentes excepto a Antártida. Foi primeiro introduzida na América do Norte, na década de 1920, depois na América do Sul no início da década de 1970 e na Europa no final dessa mesma década. Finalmente, e já neste século, apareceram os primeiros espécimes no Norte de África, em Marrocos. 

No nosso país, onde é que está presente?

Atualmente, há amêijoa-asiática em todas as grandes bacias portuguesas: Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana. Na verdade, este é um bivalve que existe hoje em dia em quase todos os rios – com excepção dos rios de pequenas dimensões e de rios de montanha com elevada corrente e muito oligotróficos, ou seja, com muitos poucos nutrientes.

Concluindo, é uma espécie que em 40 anos foi capaz de espalhar-se por todo o país, o que demonstra uma capacidade de dispersão absolutamente notável.

Mas qual é o problema com este pequeno bivalve?

Esta amêijoa provoca grandes impactos ecológicos e económicos. Desde logo, os impactos ecológicos resultam da sua elevada taxa de filtração, pois diminui as partículas na coluna de água e assim aumenta a penetração da luz. Essas mudanças, por sua vez, deixam de limitar a vegetação que está submersa.

Pode igualmente modificar a comunidade de organismos aquáticos como os macro e epibentos, devido à presença de conchas, e influenciar os predadores que a consomem. Patos e outras aves, tartarugas de água doce, lagostins e alguns peixes são animais que se alimentam da amêijoa asiática.

Foto: Ronaldo Sousa

Quer dizer que beneficiam com a presença desta amêijoa?

Embora algumas espécies beneficiem da presença de amêijoa asiática, outras são prejudicadas, como os bivalves nativos. Exemplos? As espécies Potomida littoralis, Anodonta anatina, Unio delphimus. Esses impactos negativos são especialmente importantes dado o estatuto de conservação periclitante de algumas destas espécies.

Isso acontece principalmente devido à competição desta amêijoa invasora com esses bivalves por alimento e por espaço. Por outro lado, a amêijoa asiática tem capacidade para filtrar o esperma e mesmo as larvas destas espécies nativas, impedindo assim a sua reprodução.

E quanto aos impactos na economia?

Os impactos económicos resultam do entupimento e corrosão de canalizações em instalações industriais, como são os casos das estações de tratamento de água, de captações de água para rega e de estações de energia, entre outras.

Esta amêijoa é igualmente responsável por impactos negativos na pesca e no turismo. Primeiro, porque é preciso gastar mais tempo na limpeza de artes de pesca; em segundo lugar, devido à acumulação de conchas nas praias fluviais.

Mas é possível erradicar as populações desta espécie? 

Hoje em dia, por já estar espalhada por tantos sítios, erradicá-la é impossível, mas pode-se controlar a sua expansão. As medidas de mitigação que têm sido testadas e usadas, tanto na natureza como em indústrias, consistem na utilização de tapetes e barreiras de impermeabilização, o que cria condições de anóxia. Também se utilizam biocidas e faz-se apanha manual ou mecânica.

Foto: Ronaldo Sousa

De qualquer maneira, e dados os grandes custos económicos e logísticos de remover uma espécie que vive no fundo de sistemas aquáticos, o ideal é tentar impedir que esta se disperse ainda mais. Acima de tudo, é importante que as populações locais reconheçam esta espécie como não nativa e capaz de causar grandes impactos ecológicos e económicos. 

De que forma é que as pessoas podem ajudar?

Uma boa solução é registarem a sua presença em locais onde antes não estava presente. E é importante que não usem a espécie como isco para a pesca, principalmente para evitar que seja transportada entre bacias diferentes. Por outro lado, de acordo com a lei portuguesa, esta espécie não pode ser vendida, mas colegas meus já viram estas amêijoas à venda em ‘pet-shops’.


Série Espécies Aquáticas Invasoras

Ao longo dos próximos meses, em parceria com o projecto LIFE Invasaqua, a Wilder vai dar-lhe a conhecer algumas das principais espécies aquáticas invasoras em Portugal. O LIFE Invasaqua é um projecto ibérico co-financiado por fundos comunitários que divulga informação acerca da ocorrência e combate a espécies invasoras.

Recorde o que se passa em Portugal com o siluro, o mexilhão-zebra, a rã-de-unhas-africana e o alburno.


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Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.