O nosso parque Kruger

Maréu ou papa-figos. Foto: Dûrzan/Wiki Commons

Todos os meses, o projecto “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”, ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá-lhe a conhecer as paisagens e a biodiversidade que povoam as obras literárias de escritores portugueses.

 

Em desconto dos meus pecados (…) proibi terminantemente que dentro da Quinta se fizesse mal aos bichos. No rol estava compreendida toda a espécie de aves, desde o pardal, a quem o Sr. de Buffon consagra a soberana antipatia de aristocrata, devoto do pavão e do condor, ao nebri, que não tem culpa de nascer sem outras artes que não sejam as de bandoleiro, e toda a ordem de roedores, desde o coelho ao texugo, excepto os ratos, é óbvio, contra os quais mobilizaria todos os rattenfanger deste mundo e do outro. E não lhes fazer mal significava: não lhes tirar os ninhos, nem meter-lhes medo com espantalhos ou caravelas, muito menos dar-lhes fogo. Tal como no parque Kruger.”

Aquilino Ribeiro, O Homem da Nave

 

“Kruger” evoca a vida selvagem. Na região sul-africana do Transvaal emergem áreas delimitadas para a proteção de recursos cinegéticos, muito apreciados pela população branca, desde meados do século XIX, numa história com contornos autoritários e repressivos sobre as comunidades locais. Em 1926, o estatuto de Parque Nacional chega a um território que absorve as anteriores reservas de caça, numa extensão considerável, a Este com fronteira a Moçambique.

Para muitos de nós, o Parque Nacional de Kruger é um símbolo internacional da conservação e um local extraordinário, que já visitámos ou gostaríamos de visitar. Ali, é possível observar uma parte significativa da biodiversidade africana, incluindo os grandes mamíferos, conhecidos como “big five” (elefantes, leões, rinocerontes, búfalos e leopardos) e cerca de 500 espécies de aves.

Este território tem um regulamento que limita as atividades humanas no seu interior. Proliferam aqui, ao abrigo de olhares vigilantes e de conservação da natureza, as espécies que se encontram muito ameaçadas pela caça, pelo furtivismo e pela destruição das suas condições de alimento e abrigo.

Intramuros, na Quinta de Soutosa (Moimenta da Beira), onde viveu a juventude e regressava a cada ano para uma temporada estival, Aquilino Ribeiro decretou que não “se fizesse mal aos bichos”. Era o seu parque Kruger. Seria, por isso, uma zona interdita a qualquer atividade que os assustasse ou os pusesse em perigo, “muito menos dar-lhes fogo”! Criou ali um santuário, só seu, em que os seres preciosos voavam e cantavam nos quintais e pomares.

 

 

Entrada para a antiga Quinta de Soutosa, hoje sede da Fundação Aquilino Ribeiro. Foto: Fundação Aquilino Ribeiro

 

Esta proteção universal às aves (e aos mamíferos, com exceção dos ratos) visou pôr fim às brincadeiras dos garotos trepadores das árvores, ágeis destruidores de ovos e ninhadas, aos tiros de caçadeira, e mesmo a evitar estratagemas para afugentar o passaredo: a colocação de armadilhas – costelas, esparrelas, chozes –, as negaças feitas de aves putrefactas, os engenhos barulhentos tinindo ao vento e os bonecos entrapados simulando gente.

Até a gata Defensora, animal de casa, estimado pelo escritor, esteve, uma vez, “de penitenciária na casa da lenha”, depois de ter tentado atacar um ninho com crias de gaio, “ninho serôdio de Julho, na coruta de uma das tílias, a meia dúzia de passos da habitação” (O Homem da Nave).

 

Gaio. Foto: Zeynel Cebeci/Wiki Commons

 

Aquilino Ribeiro conhece as aves e deleita-se com elas. Que importa se são comuns ou raras, discretas ou impositivas pela plumagem vistosa ou pelo canto melodioso? Juízos e preconceitos sociais, aqui, não se aplicam. Que importa se, como os pardais, ocupam o espaço em bandos, sem distância e sem receio? Que importa se, como as rapinas, tomam aqui e ali uma peça de caça, para sua própria alimentação? Ou se, para poder ter por perto as aves da sua paixão, é preciso dividir, com elas, os primores da quinta?

A propósito dos marantéus, que o escritor observa numa figueira junto à casa, escreve: “levam-me os figos-lampos e os vindimos, primeiros a amadurar. Em compensação, cantam-me o Salutaris, canto vibrante e amarelo com o corselete que vestem, ao desafio com o gemer das rolas” (Geografia Sentimental). Estes marantéus, também chamados papa-figos — disse-nos o seu guardião — são “oriundos do primeiro casal que beneficiou da minha política de paz, o qual proliferou a ponto que os descendentes se multiplicaram tão depressa como os filhos de Abraão” (O Homem da Nave).

 

Marantéu ou papa-figos. Foto: Dûrzan/Wiki Commons

 

A natureza próxima, que observamos da janela ou em volta da nossa casa, tal como aquela que, lá longe, sabemos habitar as estepes, as savanas, as florestas, ou as massas de água doce e o universo azul dos oceanos, é a riqueza mais preciosa do Planeta que coabitamos.

De facto, da quinta em que nos movemos, deveríamos fazer melhor do que um parque Kruger. Globalmente, não sobreviveremos de outro modo; com a nossa irresponsável atitude face aos nossos parceiros da biosfera, muitos animais e plantas caminham para a extinção.

Disso tomamos consciência, a cada leitura – para este efeito, recomenda-se Aquilino –, a cada evento excecional, a cada olhar maravilhado. O imperativo é fazer da Terra, com caráter de urgência, não apenas um lugar nosso, mas um lugar para todos os seres vivos, incluindo os humanos.

 

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Ana Isabel Queiroz pertence ao grupo de investigadores ligados ao “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”.

Esta é a sétima crónica da série “Escrita com Asas”.