Milhafre-real. Foto: Vnyyy/Wiki Commons

Mais um milhafre-real encontrado morto, com suspeitas de envenenamento

Esta ave era seguida por GPS e foi encontrada no início deste mês numa herdade próxima de Coruche, explicou à Wilder um responsável ligado ao projecto LIFE Eurokite.

São já oito as aves desta espécie detectadas mortas em território português desde Dezembro, graças aos emissores colocados em milhafres-reais no âmbito do LIFE Eurokite. A maioria com suspeitas de terem sido envenenadas.

Este projecto internacional co-financiado por fundos comunitários pretende identificar as causas de mortalidade de várias espécies do centro e leste da Europa, desde logo o milhafre-real. As marcações com aparelhos GPS, que permitem seguir desde longe os movimentos destas aves, começaram no ano passado, em vários países europeus. E embora não tenham sido marcados milhafres em Portugal, como se trata de uma espécie migradora e muitos vêm aqui passar o Inverno, o país foi incluído nas acções de monitorização.

Milhafre-real. Foto: Francesco Veronesi

Quanto ao milhafre-real detectado morto no início de Março, foi encontrado 15 quilómetros a sudeste da vila ribatejana de Coruche, numa herdade com actividade cinegética e florestal, indicou Alfonso Godino, ligado à AMUS-Acción por el Mundo Salvaje. Esta organização não governamental de ambiente espanhola é um dos parceiros do projecto liderado pela associação austríaca MEGEG.

A ave em causa tinha sido marcada com um emissor GPS no norte de Espanha pela SEO Birdlife (Sociedad Española de Ornitologia) há mais de um ano, a 15 de Fevereiro de 2020, e desde essa data que era seguida à distância.

A equipa do LIFE Eurokite suspeita de envenenamento ilegal por duas razões: “Principalmente a postura do corpo e o facto de ter estado a comer numa área reduzida, tendo morrido poucos segundos depois a escassos 200 metros”, detalhou Alfonso Godino, notando que a informação dada pelos emissores GPS é “muito precisa e permanente”. “Podemos traçar com pouco erro as deslocações e paragens e a hora da morte”, sublinhou.

O corpo do milhafre foi então recolhido pela equipa do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente da GNR de Coruche e depois enviado para o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária – seguindo os passos do protocolo do Programa Antídoto, para se confirmarem as causas da morte.

No âmbito da monitorização de milhafres-reais marcados pelo LIFE Eurokite, as primeiras cinco aves encontradas mortas em Portugal foram detectadas a 3 de Dezembro, no sul do concelho de Castro Verde, Baixo Alentejo, com fortes suspeitas de terem sido vítimas de envenenamento.

Um dos milhafres encontrados em Castro Verde. Foto: A. Godino / AMUS-LIFE EUROKITE

Outros dois milhafres foram entretanto descobertos no início de Janeiro, ambos com emissores GPS, em localidades diferentes no Alentejo: Sobral de Adiça e Alvito.

Em Portugal, o milhafre-real está em risco de extinção. A população invernante está classificada como Vulnerável, mas pior está a população reprodutora desta espécie: as aves que nidificam no país estão Criticamente em Perigo, a categoria mais elevada antes da extinção na natureza.

No entanto, esta avaliação já tem mais de 10 anos e a situação dos milhafres-reais nidificantes não tem sido seguida, explicou Julieta Costa, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, em declarações à Wilder em Janeiro passado.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.