Gaivota-de-patas-amarelas. Foto: Diego Delso / Wiki Commons

Um terço das gaivotas-de-patas-amarelas já fazem ninho em vilas e cidades

Os dados preliminares do primeiro censo nacional, agora divulgados, mostram que a população da espécie que se reproduz em meio urbano tem um peso importante.

Em cima de candeeiros ou a guincharem sobre os telhados, as gaivotas já fazem parte da paisagem de muitas vilas e cidades. Os dados preliminares do censo da população nidificante de gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), que se realizou entre Maio e Julho – durante o período em que fazem ninho e se revezam a cuidar das crias – confirmam que muitas destas aves se reproduzem agora em meio urbano.

Ao contrário de outra gaivota comum, a gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus), a gaivota-de-patas-amarelas tem vindo a alargar a sua área de nidificação para as cidades.

Os números ainda provisórios, divulgados pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) num webinar ligado ao Dia da Ecologia, na última semana, apontam para a existência de 1.250 a 1.717 casais de gaivotas-de-patas-amarelas com ninhos em terraços, em telhados de prédios e noutros locais elevados. Face aos resultados do censo já disponíveis para outras áreas do país, estima-se que esses “casais urbanos” representam mais de um terço – cerca de 34% – da população nidificante da espécie em Portugal Continental (onde haverá 4.804 a 5.325 casais, segundo os resultados preliminares).

“Estes números são surpreendentes”, considerou Hany Alonso, da SPEA, contactado pela Wilder, que adiantou que o número real em meio urbano é muito provavelmente superior. Isto porque muitos ninhos ficam fora de vista para quem os procura a partir da rua ou estão escondidos por obstáculos.

Este biólogo lembra que os primeiros registos de gaivotas a nidificarem em zonas urbanas surgiram entre 1998 e 2005. Há também indicações de que já antes haveria casais a reproduzirem-se no Grande Porto, desde meados da década de 90 – provavelmente com origem na Galiza, onde o fenómeno já era conhecido desde os anos 80. Mas ainda assim, a chegada da espécie às vilas e cidades portuguesas é um acontecimento recente.

Porto, Leiria e Lisboa na dianteira

Mas onde é que há mais gaivotas urbanas? O distrito do Porto surge como o grande campeão: entre 593 a 813 casais reprodutores foram ali contabilizados no censo, o que estará também relacionado com o facto de ser a zona do país onde estes casos acontecem há mais tempo. Com números bastante mais baixos segue-se o distrito de Leiria, com registo de 187 a 267 casais. Já no distrito de Lisboa, os dados obtidos apontam para 202 a 235 casais. Faro, Setúbal, Viana do Castelo e Coimbra também têm números significativos.

Mas porquê as cidades? “A proximidade dos portos de pesca tem uma grande importância para estas gaivotas”, explica Hany Alonso, que lembra que Matosinhos, no Grande Porto, e também Peniche, distrito de Leiria, têm uma grande actividade a esse nível. Por sua vez Lisboa, onde deixou de haver actividade piscatória nos últimos anos, está perto de dois locais onde se continua a apanhar muito peixe: Costa da Caparica e Sesimbra.

Na verdade, embora as gaivotas adultas consigam sobreviver com diferentes alimentos em alturas de mais dificuldade, incluindo restos de carne – e daí que recorram por vezes a aterros e a lixeiras – com as crias é muito diferente: “As crias de gaivota alimentam-se exclusivamente de peixe.” E como na pesca costuma haver rejeições, em que há pescado ali perto deitado ao mar ou que fica no porto por ter pouco valor comercial, passa a ser um alimento de acesso fácil.

Cria de gaivota. Foto: Drow male / Wiki Commons

Além de ficarem próximas de diferentes fontes de alimento, o sucesso das gaivotas urbanas também se deve à longevidade da espécie – vivem cerca de 20 anos – e à grande capacidade reprodutiva. “Quando uma postura é destruída, fazem outra facilmente.”

Ainda assim, tudo indica que em Portugal Continental a população total desta gaivota – contando com as que nidificam na costa rochosa e em ilhas – tem vindo a diminuir. Nisso têm tido uma grande influência as acções de controlo na ilha Berlenga – ao largo de Peniche – que ainda hoje alberga cerca de metade das gaivotas-de-patas-amarelas no território. Aí, desde 1994, quando se contaram 45.000 gaivotas na ilha, fazem-se acções de controlo populacional que hoje em dia se concentram nas posturas. Em 2020, contaram-se 5.591 destes indivíduos.

Mais gaivotas, mais queixas

Mas há um problema provocado pelo crescimento de gaivotas nas cidades: há cada vez mais reclamações. Em 2014, segundo os dados disponíveis relativos ao Porto, somaram-se por exemplo 168 queixas ligadas a estes animais. O número aumenta nos meses de nidificação, especialmente em Julho, quando algumas aves ficam agressivas porque estão a proteger ninhos ou crias.

Gaivota-de-patas-amarelas. Foto: Bengt Nyman/Wiki Commons

“Não acontece com todas as gaivotas, é um número muito pequeno, mas são indivíduos mais agressivos que o fazem continuamente”, refere Hany Alonso. Para resolver o problema, mais importante do que tentar o controlo populacional em cidades – bem mais difícil do que numa ilha como a Berlenga – é a gestão das fontes de alimento.

“Temos de trabalhar na gestão dos resíduos que geramos, incluindo as rejeições de pescado, os lixos urbanos e os aterros sanitários. Há muito trabalho para fazer”, sublinha o responsável da SPEA.

Acção de ciência cidadã

O primeiro censo nacional foi realizado por especialistas, tanto técnicos como voluntários, e estendeu-se a todo o país, incluindo as Regiões Autónomas, numa iniciativa conjunta da SPEA, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (Madeira) e da Direção Regional dos Assuntos do Mar (Açores).

Esta iniciativa, que é desde logo “o primeiro ponto da situação populacional das gaivotas urbanas ao nível de todo o território nacional”, vai continuar a realizar-se nos próximos anos, ajudando assim a perceber a evolução da espécie.

Em 2021, contou com a colaboração de 82 observadores de nove organizações e 109 observadores de ciência cidadã. Estes últimos participaram numa iniciativa de ciência cidadã coordenada pela SPEA, reportando avistamentos ou indícios de ninhos de gaivotas ambiente urbano. No total, deram origem a 209 registos de nidificação, ajudando os especialistas do censo a saber onde procurar.

No âmbito do censo, foram também georreferenciados os ninhos nas áreas nacionais e nalgumas cidades.

Inês Sequeira

A minha descoberta do mundo começou nas páginas dos livros. Desde que aprendi a ler, devorava tudo o que eram livros e enciclopédias em casa dos meus pais. Mais tarde, nos jornais, as minhas notícias preferidas eram as que explicavam e enquadravam acontecimentos que de outra forma seriam compreendidos apenas pelos especialistas. E foi com essa ânsia de aprender e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista. Comecei em 1998 na área de Economia do PÚBLICO, onde estive 14 anos a escrever sobre transportes, aviação, energia, entre outros temas. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da agência Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água” e trabalho para um mundo melhor. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.